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Cuiabá, Abril de 2020

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“É o maior jogador de defesa que vi no futebol brasileiro, no mesmo nível de Beckenbauer”, afirma Tostão.

Nilton Santos, o craque que se tornou 'enciclopédia do futebol'

Até ele, com sua vocação ofensiva, não havia atleta da posição que ousasse dar muitos passos além do meio-campo.

Divulgação
Nilton Santos, o craque que se tornou

Nilton Santos detestava marcar adversários como um policial perseguindo criminosos

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Redação/ABCP

O craque botafoguense revolucionou a forma de os laterais jogarem ao inaugurar a era dos alas. Sabia tanto dos fundamentos do esporte que ganhou o apelido de Enciclopédia do Futebol. Com a camisa da seleção, foi bicampeão mundial e tornou-se o maior lateral-esquerdo da história. Ou, mais que isso: uma lenda.

Nilton Santos foi chamado durante toda a carreira pelo epíteto de Enciclopédia do Futebol. Nada mais justo para o craque que revolucionou a forma de os laterais atuarem. Até ele, com sua vocação ofensiva, não havia atleta da posição que ousasse dar muitos passos além do meio-campo. O jogador do Botafogo e da seleção conquistou duas Copas do Mundo, 26 títulos (sem nunca perder uma final) e até o troféu Belfort Duarte, por passar 10 anos sem ser expulso. “Ele detestava marcar adversários como um policial perseguindo criminosos. Gostava de jogar e deixar jogar”, exaltou o cronista Maneco Muller.

Nilton considerava um absurdo receber salário para fazer algo que amava tanto. Chegou a assinar três contratos em branco com o Botafogo, para receber o que a diretoria achasse que ele merecia. A opinião entre todos os que o viram jogar é unânime: foi um craque, um gênio. “É o maior jogador de defesa que vi no futebol brasileiro, no mesmo nível de Beckenbauer”, afirma Tostão. Em eleição da Fifa em 1999, foi eleito o maior lateral esquerdo de todos os tempos.

Sem bico na bola
Nascido na Ilha do Governador em 16 de maio de 1925, Nilton dos Santos era o sétimo filho de um pescador. Quase seguiu a profissão do pai, mas gostava mesmo de passar as tardes jogando bola nas ruas bucólicas do bairro. Durante o serviço militar, foi descoberto por um oficial da Aeronáutica, que o levou para o Botafogo. Queria jogar no ataque. O treinador, porém, o colocou primeiro como beque e depois na lateral esquerda, apesar de destro. E sofria ao ver como seu defensor gostava de avançar.

Logo foi convocado para a seleção, sob o comando de Flávio Costa. Nilton tinha o hábito de encomendar chuteiras macias, então um privilégio de jogadores de ataque. “Zagueiro meu precisa jogar de chuteira de bico duro. Como vai dar bicão na bola?”,esbravejou o treinador. A resposta estremeceria a relação entre os dois. “Eu não dou bico na bola. Não tenho raiva dela.” O lateral viu a Copa no Brasil, em 1950, sentado no banco de reservas – lugar que ocuparia pela última vez na vida. 

Compadre Garrincha
“Contratem logo esse garoto, não quero passar o vexame que passei hoje com o Maracanã cheio”, ordenou Nilton Santos após o primeiro treino com um desconhecido chamado Garrincha, que fazia testes no Botafogo. Dizem que tomou mais dribles humilhantes naquele treino do que em toda a carreira. Seriam compadres e amigos pelo resto da vida. O Anjo das Pernas Tortas o tinha quase como um pai.
O respeito era tanto que, quando estava com ele, evitava beber. Ao lado de Garrincha, o lateral se tornou ídolo nacional na Copa de 1958. Logo na estreia, contra a Áustria, pegou a bola pela esquerda e começou a avançar, apesar dos gritos do técnico Vicente Feola: “Volta, Nilton! Volta, seu maluco!”. Tabelou com Mazzola, recebeu dentro da área e balançou as redes, como um autêntico atacante.
Em 1962, aos 37 anos, foi um dos líderes da equipe que levou o Reprodução
uma resposta ao treinador fez com que pa ssasse a copa de 1950 no banco: “Não dou bico na bola. Não tenho raiva dela”. Brasil ao bicampeonato. Seu lance mais notório foi a boa malandragem contra a Espanha. A seleção estava sendo batida por 1 a 0. Quem perdesse estaria fora. Nilton cometeu um pênalti. Calmamente, levantou os braços e deu um passo adiante. Quando o árbitro se aproximou e viu o
jogador fora da área, marcou apenas falta. E o Brasil virou a partida.

Elegância e sutileza
“Tu, em campo, parecias tantos. E, no entanto, que encanto! Eras um só: Nilton Santos”, desmanchou-se o jornalista Armando Nogueira em uma crônica. Seu estilo leal e inteligente conquistou uma legião de admiradores. Gostava de dizer que era mais fácil jogar em pé do que deitado. Detestava dar carrinhos. “Ele marcava pelo lado de dentro, empurrava o ponta para a bandeirinha de escanteio, encurralava e o desarmava, com elegância e sutileza”, descreveu o santista Pepe.
O lateral que inaugurou a função dos alas atuais se aposentou em 1964. Em 2008, foi diagnosticado com mal de Alzheimer. A diretoria do Botafogo não esqueceu do jogador que nunca vestiu outra camisa e o ajudou financeiramente no tratamento. A torcida se movimentou e ergueu uma estátua em sua homenagem em frente ao
estádio do Engenhão. Sua morte, em novembro de 2013, comoveu o mundo do futebol. O Botafogo decidiu que a partir de então toda camisa 6 deve vir com a assinatura de Nilton Santos sobre o distintivo do clube. Nem a camisa 7, que foi de Garrincha, mereceu a mesma honraria.

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