Assine e receba a edição em casa

Vídeo Institucional

Cuiabá, Dezembro de 2019

Expediente Login
Almanaque Cuiabá
“É o maior jogador de defesa que vi no futebol brasileiro, no mesmo nível de Beckenbauer”, afirma Tostão.

Craque que se tornou 'enciclopédia do futebol'

Até ele, com sua vocação ofensiva, não havia atleta da posição que ousasse dar muitos passos além do meio-campo.

Divulgação
Craque que se tornou

Nilton Santos detestava marcar adversários como um policial perseguindo criminosos

Tamanho do Texto A+ A-
Redação/ABCP

O craque botafoguense revolucionou a forma de os laterais jogarem ao inaugurar a era dos alas. Sabia tanto dos fundamentos do esporte que ganhou o apelido de Enciclopédia do Futebol. Com a camisa da seleção, foi bicampeão mundial e tornou-se o maior lateral-esquerdo da história. Ou, mais que isso: uma lenda.

Nilton Santos foi chamado durante toda a carreira pelo epíteto de Enciclopédia do Futebol. Nada mais justo para o craque que revolucionou a forma de os laterais atuarem. Até ele, com sua vocação ofensiva, não havia atleta da posição que ousasse dar muitos passos além do meio-campo. O jogador do Botafogo e da seleção conquistou duas Copas do Mundo, 26 títulos (sem nunca perder uma final) e até o troféu Belfort Duarte, por passar 10 anos sem ser expulso. “Ele detestava marcar adversários como um policial perseguindo criminosos. Gostava de jogar e deixar jogar”, exaltou o cronista Maneco Muller.

Nilton considerava um absurdo receber salário para fazer algo que amava tanto. Chegou a assinar três contratos em branco com o Botafogo, para receber o que a diretoria achasse que ele merecia. A opinião entre todos os que o viram jogar é unânime: foi um craque, um gênio. “É o maior jogador de defesa que vi no futebol brasileiro, no mesmo nível de Beckenbauer”, afirma Tostão. Em eleição da Fifa em 1999, foi eleito o maior lateral esquerdo de todos os tempos.

Sem bico na bola
Nascido na Ilha do Governador em 16 de maio de 1925, Nilton dos Santos era o sétimo filho de um pescador. Quase seguiu a profissão do pai, mas gostava mesmo de passar as tardes jogando bola nas ruas bucólicas do bairro. Durante o serviço militar, foi descoberto por um oficial da Aeronáutica, que o levou para o Botafogo. Queria jogar no ataque. O treinador, porém, o colocou primeiro como beque e depois na lateral esquerda, apesar de destro. E sofria ao ver como seu defensor gostava de avançar.

Logo foi convocado para a seleção, sob o comando de Flávio Costa. Nilton tinha o hábito de encomendar chuteiras macias, então um privilégio de jogadores de ataque. “Zagueiro meu precisa jogar de chuteira de bico duro. Como vai dar bicão na bola?”,esbravejou o treinador. A resposta estremeceria a relação entre os dois. “Eu não dou bico na bola. Não tenho raiva dela.” O lateral viu a Copa no Brasil, em 1950, sentado no banco de reservas – lugar que ocuparia pela última vez na vida. 

Compadre Garrincha
“Contratem logo esse garoto, não quero passar o vexame que passei hoje com o Maracanã cheio”, ordenou Nilton Santos após o primeiro treino com um desconhecido chamado Garrincha, que fazia testes no Botafogo. Dizem que tomou mais dribles humilhantes naquele treino do que em toda a carreira. Seriam compadres e amigos pelo resto da vida. O Anjo das Pernas Tortas o tinha quase como um pai.
O respeito era tanto que, quando estava com ele, evitava beber. Ao lado de Garrincha, o lateral se tornou ídolo nacional na Copa de 1958. Logo na estreia, contra a Áustria, pegou a bola pela esquerda e começou a avançar, apesar dos gritos do técnico Vicente Feola: “Volta, Nilton! Volta, seu maluco!”. Tabelou com Mazzola, recebeu dentro da área e balançou as redes, como um autêntico atacante.
Em 1962, aos 37 anos, foi um dos líderes da equipe que levou o Reprodução
uma resposta ao treinador fez com que pa ssasse a copa de 1950 no banco: “Não dou bico na bola. Não tenho raiva dela”. Brasil ao bicampeonato. Seu lance mais notório foi a boa malandragem contra a Espanha. A seleção estava sendo batida por 1 a 0. Quem perdesse estaria fora. Nilton cometeu um pênalti. Calmamente, levantou os braços e deu um passo adiante. Quando o árbitro se aproximou e viu o
jogador fora da área, marcou apenas falta. E o Brasil virou a partida.

Elegância e sutileza
“Tu, em campo, parecias tantos. E, no entanto, que encanto! Eras um só: Nilton Santos”, desmanchou-se o jornalista Armando Nogueira em uma crônica. Seu estilo leal e inteligente conquistou uma legião de admiradores. Gostava de dizer que era mais fácil jogar em pé do que deitado. Detestava dar carrinhos. “Ele marcava pelo lado de dentro, empurrava o ponta para a bandeirinha de escanteio, encurralava e o desarmava, com elegância e sutileza”, descreveu o santista Pepe.
O lateral que inaugurou a função dos alas atuais se aposentou em 1964. Em 2008, foi diagnosticado com mal de Alzheimer. A diretoria do Botafogo não esqueceu do jogador que nunca vestiu outra camisa e o ajudou financeiramente no tratamento. A torcida se movimentou e ergueu uma estátua em sua homenagem em frente ao
estádio do Engenhão. Sua morte, em novembro de 2013, comoveu o mundo do futebol. O Botafogo decidiu que a partir de então toda camisa 6 deve vir com a assinatura de Nilton Santos sobre o distintivo do clube. Nem a camisa 7, que foi de Garrincha, mereceu a mesma honraria.

VOLTAR AO TOPO

    Compartilhe

  • Compartilhar no Facebook
  • Compartilhar no Google Plus
  • Compartilhar no Twitter

Olá, deixe seu comentário para Craque que se tornou 'enciclopédia do futebol'

Enviando Comentário Fechar :/