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Cuiabá, Maio de 2020

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Almanaque Cuiabá

São João e a água

O mês de junho se foi, mas as festas juninas ainda continuam em nossa cidade e em nossa memória. A alegria dos festejos se confunde com a hospitalidade do nosso povo.

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Passear pelo centro histórico neste período é a mesma coisa que relembrar as grandes festas de São João que aconteciam no espaço urbano da cidade.

Por lá as festas juninas sempre aconteceram com muita frequência. A lavação do santo consistia em colocar os pés dele sobre a água e daí para frente tudo era alegria. Banda de música, noiva no carro de boi, quadrilha, quentão e muita animação. Havia três opções para a lavação do santo: O Chafariz do Jardim Alencastro, a Bica da Prainha e o Tanque do Baú. Porém, havia os que preferiam atingir o rio Cuiabá, como o S. João, de dona Carlota Ferreira Ponce, moradora da encosta do Bom Despacho.

O São João mais famoso era o de “Siá Blandina” que era lavado na Bica da Prainha. A rua ficava pontilhada de fogueiras e as estrelas saltitavam no céu, como se quisessem cair por sobre o córrego da Prainha. Nas margens do córrego ficavam a emoldurar a festa seu Tingo, Portela, Clóvis Sabo, Manoel de Horácio, Firmo Fontes e outros, como dizia Dunga Rodrigues.

O povo vinha de todo lugar para procurar a Bica e as suas festas hoje, criminosamente destruída para dar lugar a urbanização da cidade. Quantas cidades brasileiras enfeitam as suas ruas e praças com essas bicas e esses chafarizes? Por que Cuiabá não faz o mesmo? Segundo o historiador Lenine de Campos Povoas, o lugar ainda chora pelo seu resgate, pela sua reconstituição, pois permanece sempre úmido e frio.

No Bairro Lixeira, o S. João de seu Bento – um pedreiro e o seu irmão Honório, era lavado no Tanque do Baú, lugar onde hoje está erguida uma escola municipal, via aquática soterrada pelos prédios e pelas insensibilidades.

Lá pelos lados da igreja do Rosário, o São João de Nhá Tuta e João Romão, as festas de Merenciana, de Maximiana, de Eulália, de Joana e Chá Nhana, deixaram eternas saudades e se perderam no tempo e no espaço.

Pelas bandas da Igreja Mãe dos Homens, o São João do seu Gurgel ia do Bosque até o Jardim Alencastro para a lavação do santo no Chafariz do Jardim e o povo numa procissão festiva caminhava calmamente, sem ter medo da violência, de assalto ou da velocidade dos veículos.

Isso tudo, sem esquecer que do outro lado do rio, tinha o S. João de Licinio Monteiro, conhecido como um São João meio político que acomodava uma grande quantidade de eleitores e o São João do Palácio das Águias e do Colorido, cabarés famosos de outrora, situados no Morro da Luz, parte central de Cuiabá, o qual hoje aconchega bandidos, desocupados, adolescentes abandonados, todos com direito a festa privativa às sextas-feiras regadas aos mais diversos tipos de drogas, segundo denúncias de uma adolescente de apenas 14 anos de idade através de um canal de TV e cuja entrada é marcada por uma senha, várias tatuagens no braço e direito à recepção por dois recepcionistas munidos de revólver calibre 38.

Naquela época, por ali havia respeito, mesmo sem grande quantidade de policiais. O São João do Colorido e do Palácio das Águias aguardava o término da lavação do São João das famílias para, após a meia-noite, eles lavarem o deles. Não utilizavam nem senhas e nem códigos.

Quanta coisa mudou! Hoje, tudo está estilizado! Carregaram o São João para dentro dos clubes, das chácaras, das casas, das escolas. Nossas crianças não têm mais a oportunidade de presenciarem os festejos, o carro de boi, o casamento caipira, os noivos, as vestes tipicamente caipiras, a fogueira de verdade.

Contentam-se com as brincadeiras e as quadrilhas ensaiadas nas escolas, as fogueiras de papel celofane. Tudo ficou menos alegre, mais sombrio e mais produzido. E as nossas crianças? Elas estão presas por falta de segurança nas cidades.  Coisas do nosso tempo!...

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