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Cuiabá, Maio de 2020

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Almanaque Cuiabá

Manoel Cova

E o cemitério do Cai-cai, onde enterravam os bexiguentos não chegava a comportar tantos cadáveres, nem era possível abrir covas suficientes, num só dia, para tantos mortos.

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A varíola que assolou e dizimou quase totalidade da população de Cuiabá, após a guerra do Paraguai, provocou vários incidentes dramáticos, uns caricatos, outros, mesmo em meio ao terror e lendários e inverossímeis, por vezes, alguns deles.

Chá de erva-de-cão, feito de fezes de cachorro que, segundo acreditavam na época, era tiro-e-queda para curar bexiga, até varíola negra, já se tornara inócuo para debelar a peste. Morria gente como farinha.

E o cemitério do Cai-cai, onde enterravam os bexiguentos não chegava a comportar tantos cadáveres, nem era possível abrir covas suficientes, num só dia, para tantos mortos. Resolveu-se, pois, incinerar aqueles, para os quais não houvesse jazigo suficiente.

Depois de empilhados, eram queimados pelos soldados do batalhão de artilharia, que, num trabalho de auxílio, varejavam as casas, à cata de defuntos ou moribundos. Certa vez, um soldado encontrou, morre-não-morre, um doente e achou por bem levá-lo junto aos que já haviam expirado, para que aguardasse a própria incineração junto às pilhas de cadáveres. Tratava-se do português José Manuel, residente na rua 13 de junho, antigo bairro do Lavra-Pau.

Era já o anoitecer, por isso os praça adiaram a cremação para o dia seguinte. José Manuel, ao despertar horrorizado, em meio às carnes pútridas da peste, invocou o senhor dos Passos, prometendo erguer-lhe uma capela, se conseguisse reunir forças para atingir a sua casa.

Aí chegando, deparou-lhe o vandalismo dos que saquearam e depredaram-lhe o modesto quarto. Mas, atirado a um canto, lá estava o seu colete velho, onde escondia todas as economias. Cumpriu a promessa, mas coube-lhe o apelido de Manuel Cova.

 

NOTA: Do livro Lendas de Mato Grosso/Dunga Rodrigues - Esta lenda, recriada por Firmo Rodrigues no seu livro " FIGURAS E COISAS DE MINHA TERRA" - foi divulgada em primeira mão por Joaquim Ferreira Moutinho, no seu Livro " PROVÍNCIA DE MATO GROSSO" em 1834.
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