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Cuiabá, Maio de 2020

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Almanaque Cuiabá

A Senha - croniconto

Nunca mais havia voltado ao banco. Faz dois anos que voltei. Para nunca mais, ou melhor, para sempre. O gerente disse que, se eu não renovasse a senha, perderia a conta. Não podia perdê-la, era a única que tinha.

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Cheguei lá e uma mulher foi designada para tratar disso comigo. Bom dia. Bom dia, senhor. Foi logo me dizendo: sua senha deve ter, no mínimo, seis dígitos. Não tive dúvida: sapequei o meu aniversário. Apertei o botão de confirmar. Nada. De novo. Nada. Outra vez. Nada. A atendente virou-se com aquela cara de sonsa: não pode ser a data do seu aniversário. Ok. Nova tentativa. Digitei a data de aniversário dos meus filhos. Agora vai. Nada. De novo. Nada. Mais uma vez. Nada. No canto da boca daquela mulher uma ponta afiada sorria da minha ignorância. Negativo, senhor. É preciso que não tenha apenas números, coloque letras também. Ah, sim. Letras. Fiquei pensando. A operação já estava ficando difícil. As três iniciais das letras dos meus filhos e mais a data de nascimento deles. Por ordem de nascimento, claro. Isso. Deve servir. Com a fé de que iria sair dali logo, apertei o botão verde para confirmar. Digite de novo. Ok, digitei. Nada. Repetir a operação. Repeti. Nada. Inferno! Novamente, a atendente que estava de costas virou-se e me informou: o senhor digitou minúsculas e maiúsculas? Não. Mas tem que digitar. Quantas maiúsculas e quantas minúsculas? O senhor pode escolher livremente. Ok. Deixa ver se entendi: números, letras, sendo minúsculas e maiúsculas, em qualquer ordem? Isso mesmo. Tá bom. As letras dos nomes dos meninos, pequenas e grandes, mais a data de nascimento.

Mandei bala. Não tem erro. Confirmei. Depois, confirmei de novo. Apareceu outra tela me mostrando doze cenários. Em qual deles eu via uma árvore. Perguntavam para saber se eu não era um robô. Fiquei irritado. Como a porra de um robô estaria na agência trocando a senha? Ok. Respirei. Contei até dez. No sete, já tinha me acalmado. Escolhi as imagens com as árvores. Confirmei. Não sou um robô, afinal de contas. O computador confirmou que eu não era. Apareceu uma ampulheta. Espere um instante, senhor. Bom, isso eu presumi com a ampulheta, respondi. Então, espere com ou sem presunção. Senti que ela estava ficando nervosa comigo. Um minuto depois, a mulher virou-se: acabou? Acabei. Conseguiu? Consegui. Quando ela viu a tela, abriu um sorriso sarcástico: ainda não, senhor - estão transmitindo os seus dados para a central. Ok. Trinta segundos depois, veio a mensagem de erro. Moça, deu alguma coisa errada. O que foi? Não completou a transação.

O senhor vai ter que tentar de novo. Não é possível! Desculpe, senhor, mas é o procedimento. Estou aqui há duas horas! Nervoso, digitei as primeiras letras do nome dos meninos, entre maiúsculas e minúsculas, a data de nascimento, e apertei logo o botão. Veio a tela me mostrando nove cenários para escolher em quais deles havia uma casa. Escolhi. Confirmei. Reconfirmei. Pediram-me para digitar a senha que eu estava lendo na tela. Obedeci. Ampulheta. Sessenta segundos. Erro. Mais um erro. Puta que pariu! Senhor, mantenha a calma. Ok, desculpe. O senhor deve estar fazendo alguma coisa errada. Não estou. Está, sim. Não estou! A senha, então, já deve existir. Como assim? Acontece muito. Mas alguém tem os filhos chamados José, João e Eduardo, nessa ordem, que fazem aniversário no dia seis de maio? Deve ter. Mundo pequeno esse... Tentei de novo. Agora com as iniciais do nome da minha mulher, depois das crianças, maiúsculas e minúsculas, os seis números, a prova de que não sou robô, a senha de confirmação: confirma, confirma, confirma. Trinta segundos depois, o computador disse que a operação foi um sucesso e que mandou a nova senha de segurança para o meu telefone celular. Mas não estava com o meu celular. Voltei pro carro. A atendente ficou me esperando, reservando o lugar defronte à máquina. Tirei o celular de dentro da pasta e vi que, realmente, há um torpedo com uma senha. Digitei os números. Nada. Erro. Comecei a transpirar. Apareceu uma mensagem: tempo esgotado. Favor tentar novamente. A mulher olhou para cima, impaciente.

O senhor vai ter que repetir a operação. Já é quase hora do almoço. Tudo bem, repeti. Iniciais da mulher, dos filhos, maiúsculas e minúsculas, escolhi três sobremesas de chocolate para provar que não sou um robô, digitei a senha que apareceu na tela, recebi a nova mensagem no torpedo, digitei os números recebidos e voilà!, agora foi. Mas não tinha ido. Na tela, vi a mensagem: a confirmação está no seu e-mail. Moça, mandaram para o meu e-mail, está tudo certo? Ainda não. O senhor precisa validar a operação. Sádica!, murmurei baixinho. Peguei o celular e cliquei sobre o navegador. Sem sinal. No banco, instalaram um dispositivo que impedia o acesso à internet. São as normas de segurança, senhor – me informou a mulher de uniforme. Por que? Porque os funcionários estavam perdendo tempo no bate-papo da internet. Ok. Saí da agência. O sinal voltou. Fazia um calor desgraçado. Na camisa, já se formava uma poça de suor sob as axilas. Acessei direto o correio eletrônico. Baixando. Baixando. Baixando. Um corretor de imóveis havia me mandado quinze fotos do apartamento que ele estava vendendo. Um cliente me mandou cópia digitalizada de um processo no qual eu trabalhava. O e-mail estava pesado demais. Não consegui abrir tudo.

Deletei aquela merda toda. Inferno! Inferno! Inferno! Cinco minutos depois, chegou a mensagem. Abri o mail. Ali estava o código de confirmação. Voltei correndo para a agência. Apitou o detector de metais. Pu-ta-que-pa-riu!, separei sílabas babando de raiva. Fui obrigado a me separar do celular. Apitou de novo. Dessa vez, me desfiz do cinto. Apitou de novo. Tirei os sapatos. Apitou mais uma vez. Caralho! Fui submetido à revista magnética. Estendi os braços, afastei as pernas e tudo o mais. Dois seguranças para me checar. Está limpo. Claro que estou, respondi. Coloquei o cinto, o sapato, peguei o celular. Cadê a mulher?, perguntei a um rapaz de uniforme. Cadê aquela merda de atendente?, acabei gritando. Procurei na fila. Ela não estava mais lá. Tinha saído para o almoço. Voltei ao gerente. Também foi almoçar. O substituto me disse que voltaria em duas horas. Indicou-me outra pessoa. O tempo foi passando. Os dias, semanas, anos. Percebi que não adianta me descontrolar. Estou calmo agora. Pelo menos, estou no ar condicionado. Da minha casa, recebo uma muda de roupa todos os dias e vejo os meus filhos uma vez por semana pelo vidro blindado da agência. Desde então, moro aqui. Nunca mais saí do banco. Já me conformei.

 

Eduardo Mahon é advogado, escritor e titular da Cadeira 11 da AML
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