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Cuiabá, Abril de 2020

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Almanaque Cuiabá

A Pracinha do Vovô

Em 1973, quando completou o centenário de nascimento de meu avô Alberto, o secretário de Obras do prefeito Vila-Nova Torres convenceu a autoridade municipal a registrar a data.

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Não havia nada para inaugurar.

O secretário Rômulo Vandoni fez ao prefeito uma proposta irrecusável.

Havia caído o casarão do PSD na rua de Baixo.

O secretário propôs a limpeza do pequeno terreno, conseguiu do comércio local alguns bancos de cimento com publicidade de retorno e o busto do meu avô foi doação de seu filho Osvaldo Novis.

Essa é a história da primeira inauguração da Pracinha Alberto Novis.

Atualmente, a arquiteta Adriana Bussiki, esposa do prefeito, está executando um projeto de revitalização das praças cuiabanas.

Repaginou o pequeno espaço e festejou a reinauguração.

Como neto e colega do homenageado, coube-me a função de agradecer o evento em nome da família.

Receber homenagem é fácil. Difícil é merecer a homenagem.

O meu avô deixou-me muito tranqüilo no agradecimento que fiz.

Foi um exemplo de superações. Viajou dois meses para fazer o percurso Cuiabá-Salvador na segunda metade do século XIX.

Realizou o seu sonho de ser médico na escola Imperial de Medicina da Bahia. Defendeu tese muito aplaudida e difundida no meio científico internacional e nacional através de Fernando Magalhães o pai da obstetrícia moderna e seu grande discípulo Jorge de Rezende.

Casou-se, teve oito filhos e sua mulher, minha avó, faleceu aos trinta anos de idade. Antes adquiriu uma doença e ficou surdo.

Continuou vencendo obstáculos. Otorrino não precisava tanto do ouvido para atender aos seus pacientes. Foi ao Rio de Janeiro, se especializou e tornou-se o primeiro otorrino de Mato Grosso. E era surdo.

Contraiu um novo casamento. Fracassou. Em 1946, já separado, ficou viúvo pela segunda vez. Nova superação. Após algum tempo foi a Bahia atrás do seu primeiro amor.

Terminado o curso de medicina, propôs à sua namorada da época de faculdade para acompanhá-lo no seu retorno à Cuiabá.

Filha única tinha uma mãe idosa. Não pode aceitar ao pedido.

Vovô, viúvo pela segunda vez, volta à Bahia para reforçar o pedido de casamento. A resposta da baianinha foi que a sua mãe estava muito velha precisando de cuidados mais intensos. Ele retorna só mais uma vez.

Exerce várias atividades na política, no jornalismo, na literatura, na poesia, e principalmente, estudava diariamente medicina.

Foi o primeiro médico a diagnosticar a febre amarela e trabalhar na sua prevenção e erradicação em Mato Grosso.

Lia e falava fluentemente o francês. Nunca se queixou de nada.

Em 1962, meu avô se encontrava no Rio de Janeiro hospedado na casa da sua filha Rosa, hoje ainda com saúde aos 94 anos, quando fui visitá-lo.

Com entusiasmo juvenil relata-me que iria dentro de poucos dias à Salvador. A sua namorada dos tempos de adolescência tinha perdido a mãe e ele continuava viúvo.

Ela nunca se casara. Dividia seu amor com a mãe já velhinha e com a família do seu namorado de faculdade.

De retorno ao Rio mais uma vez só, relatou-me o último diálogo ao pedido de casamento: “Alberto, agora nós é que estamos velhos demais para o casamento. Temos 89 anos. O tempo passou.”

Ele não suportou a derrota afetiva e no retorno morreu nos meus braços na casa da tia Rosa no Rio de Janeiro.

O seu corpo ficou longe de Cuiabá num capricho de um destino que o impediu, pela distância, de casar-se com a sua namoradinha da Bahia.

Morreu pobre. Não possuía recursos para velório em Capela.

A sua namoradinha viveu até 108 anos.

Vovô foi um exemplo de superação. Viveu a vida vivida e não a vida inventada.

A pracinha hoje reinaugurada simboliza onde tudo começou. Um pequeno espaço que lembra o útero materno.

Vovô foi grande demais.

 

postado por Gabriel Novis Neves, em 2008
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