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Cuiabá, Junho de 2019

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Almanaque Cuiabá

Pantaleão, um ser morto que salvou seis vidas

Na década de 60, a Companhia de Desenvolvimento de Mato Grosso – Codemat contratara uma equipe de topografia para um levantamento topográfico de umas terras nas imediações do Rio Guariba, no município de Aripuanã.

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Era uma equipe formada por seis pessoas – um topógrafo, dois balizadores, dois picadeiros e um cozinheiro.

Todos bem equipados, desceram de um caminhão que os trouxera de uma pequena comunidade garimpeira denominada de Panelas.

Chegaram a um lugar, onde a péssima estrada, que mais parecia uma picada, cruzava o pequeno Rio Guariba.

Naquela época, o município de Aripuanã era totalmente desconhecido, quase isolado no gigantesco Mato Grosso indiviso. O acesso aos garimpos da região era feito somente por pequenos aviões, dependendo da época do ano...

Seguindo o rio acima, aqueles corajosos homens não se intimidaram com as adversidades que iam encontrando e partiram em busca do objetivo, baseando-se em alguns velhos mapas da região e que não inspiravam muita confiança.

Mesmo assim, deduziram que seguindo o tal rio encontrariam algum marco antigo numa de suas margens, o que possibilitaria a orientação para execução do serviço para a Codemat.

Caminharam o dia todo através da densa Hileia Amazônica. Com a chuva das mais intensas, quase não se podia visualizar os segmentos do rio, que as vezes se embrenhava dentro da floresta úmida.

Por vezes, pensavam em voltar, mas pelo avançar das horas era pior. A água do rio era muito escura e estava infestadas de imensas cobras e outros animais muito perigosos.

Já estava bastante escuro e a corajosa equipe teve que se afastar das proximidades do Rio Guariba, buscando um local mais alto e mais seguro para montar acampamento.

Andaram muito para encontrar um local mais descampado para o esperado repouso.

A noite chegou e se tornou um pesadelo, pois o local escolhido do estava infestado de formigas gigantes. E no meio da noite tiveram que fugir às pressas do apavorante lugar.

Quando amanheceu o dia tentaram voltar ao local onde estavam antes, mas foi em vão: perceberam, então, que estavam perdidos.

Na fuga das formigas gigantes, perderam quase todo o equipamento que carregavam, inclusive a bússola. Tentaram subir nas árvores para melhor visualizar o lugar, mas seus troncos tinham metros de diâmetro, tornando impossível a escalada.

Sol, nem pensar. Nem podia ser visto, com tanta chuva e o céu cinzento. Esgotavam-se, portanto, todos os recursos de orientação. O desespero começava a tomar conta do grupo.

Passou um, dois, três dias e suas provisões já no fim. Já caminhavam sem rumo pela densa mata amazônica, em busca apenas de comida para a sobrevivência.

O pânico passou a ser o companheiro constante da turma, que começava a se desentender. Todo o resto do equipamento ia sendo deixado pela mata para facilitar a caminhada.

Depois de muito andar, os homens encontraram uma tapera abandonada, certamente pertencente a algum seringueiro do passado. Para eles, já era alguma coisa. Buscaram em sua volta vestígios de alguma coisa, de alguma picada ou algum outro sinal, mas nada foi encontrado.

A única coisa que identificaram ao lado da tapera foi uma tosca sepultura, que tinha um nome singular: “Pantaleão” Jogaram-se de joelhos em volta da velha catacumba, implorando com toda fé que se possa imaginar que aquela boa alma lhes mostrasse um caminho para salvar suas vidas.

Naquela angústia, prometeram que se fossem salvos, voltariam àquele local para edificar, com todas as honras, uma nova sepultura.

Pois o milagre aconteceu! Após aquela fervorosa oração, eles escutaram dentro da negra floresta, latidos de um cão. Não pestanejaram: saíram correndo para o lado de onde vinham os latidos.

Após muitas horas perseguindo apenas os latidos do cão, que não aparecia de maneira nenhuma, avistaram fumaça de um acampamento: eram funcionários da Comissão de Estradas de Rodagem de Mato Grosso que se preparavam para algum trabalho de abertura de estrada naquele longínquo município.

– Graças a Deus, estamos salvos! – exclamou o topógrafo.

Acolhidos pelo pessoal da Comissão de Estradas de Rodagem, os recém chegados relataram o terrível episódio. Sempre dando “graças a Deus e ao seu cachorro”, repetiam os visitantes que sem os latidos do cão não teriam conseguido se salvar.

Seguiu-se um silêncio entre os amigos da comissão de abertura de estradas, quando alguém disse: “Nós não temos nenhum cachorro neste acampamento, companheiros!...”

– Ué, mas como viemos seguindo os latidos de um cachorro através da mata?!” – perguntou um dos resgatados.

Novo silêncio até que um deles lembrou: “Temos que voltar ao local da tapera e cumprir o prometido. Quem sabe foi aquela alma bondosa que nos mandou o cachorro para nos salvar...”

No dia seguinte, já restabelecidos os seis homens da equipe e mais dois da CER retornaram a tapera e construíram uma sepultura mais digna para os restos mortais daquela bondosa alma.

E para surpresa de todos, quando cavaram a rasa sepultura para transladar os ossos de uma cova para outra, o que estava lá? A ossada de um cachorro!...

 

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