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Cuiabá, Março de 2019

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Almanaque Cuiabá

O Cavalo sem cabeça

No velho distrito de Nossa Senhora da Guia, ainda lá pelos anos 40, ocorreu um fato muito curioso e que apesar do tempo passado, não se apagou da memória de algumas pessoas que vivenciaram o acontecido ou que ouviram contar a estranha história do “cavalo sem cabeça”.

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Com o falecimento do seu Barbosa, assassinado não se sabe por quem, e que era uma figura admirada na região, homem bom e de muitas posses, entre elas a grande Fazenda Limoeiro. Sua esposa, dona Claudina, dedicada e trabalhadeira, também contribuiu para aquisição do patrimônio do casal.

Muito abalada com a morte do marido, ela ficou doente e preocupada, pois daquele dia em diante teria que tomar conta sozinha do dia a dia da fazenda, o que exigia muito sacrifício.

Mas fazer o que, afinal de contas suas duas filhas, Candinha e Aurora, eram pequenas demais para ajudá-la na lida diária na propriedade. Por isso, ela só podia contar com os empregados da fazenda, com sua fé em Deus e em Nossa Senhora da Guia, da qual era fervorosa devota, esperando que as coisas melhorassem.

Com o passar dos meses, a tranquila fazenda – seu “pequeno paraíso” – como dizia o finado Barbosa, passou a sofrer perturbações, com alguns acontecimentos no mínimo misteriosos, principalmente nas noites mais escuras.

Estranhos ruídos passaram a ser percebidos perto da sede da fazenda, perturbando o silêncio do gado, que por vezes estourava, sem razão aparente, durante a noite.

A “peãozada” amedrontada inventava histórias mirabolantes de assombração, dizendo que a fazenda estava sendo visitada por espíritos do mal que aterrorizavam a todos.

O seu Ezequiel, o capataz, mostrando-se mais corajoso, afirmava ser apenas a presença de onça pintada nas imediações da fazenda, porém a maioria dos peões rebatia a sua versão, pois nunca se encontrava nenhum vestígio ou mesmo rastro de animais selvagens na propriedade.

A cada dia o estranho fenômeno se tornava mais constante. Encabulados com os acontecimentos, os próprios vaqueiros da fazenda resolveram montar guarda durante as noites escuras para desvendar o mistério. Amaram “jiraus” de paus em pontos estratégicos da fazenda, para observação.

Era uma sexta-feira, noite escura, sem lua, propícia para manifestações sobrenaturais. E lá estavam os vigias corajosos: Damião subido num dos “jiraus”, e no outro, Tonhão.

No frio da noite escura, Tonhão, que cochilava, foi bruscamente despertado por um estranho mugido que não era de boi normal. Muito esquisito, o mugido parecia um grito de dor, vindo do sobrenatural, talvez das estranhas do inferno!

O gado, que dormia tranqüilo, assustou-se e no desespero arrombou a forte cerca do curral. Tonhão, atordoado pelo som assustador, apavorado empunhou com as duas mãos trêmulas a velha lanterna, focando sabe lá o quê? Talvez o próprio demônio... quando de repente no foco da lanterna apareceu uma imagem horripilante.

Seus olhos não acreditavam no que viam. Seria coisa do outro mundo? Parecia a mistura de animal com o próprio demo. Ele tentava gritar, mas alguma coisa o sufocava, talvez o próprio medo...

Reunindo forças, não se sabe de onde, o velho peão, cambaleando e com as pernas tremendo mais do que vara verde, conseguiu descer do “girau”, e correr para dentro da casa da fazenda, encontrando Damião que lá já estava, também apavorado, e que jurava ter assistido a incrível cena.

Após terem se acalmado, os dois chegaram a conclusão que tinham visto um “cavalo sem cabeça”, que parecia estar com o demônio ou sendo conduzido pelo próprio capeta. Vôte!

Com os frequentes acontecimentos desagradáveis, a viúva dona Claudina, aborrecida e apavorada, mudou-se com suas duas filhas às pressas para o vilarejo da Guia, indo morar na casa de parentes.

Alguns dias depois apareceu no vilarejo, à procura da viúva, o seu Ezequiel, o capataz da fazenda, que com muita sutileza, aproveitando-se da fraqueza de dona Claudina, propôs-lhe comprar a propriedade por um valor irrisório, justificado pelos acontecimentos. Dona Claudina, muito fragilizada, aceitou a minguada proposta, desfazendo-se do valioso patrimônio de sua família, e com ele as memórias do seu querido e falecido esposo.

Ezequiel, agora todo garboso, proprietário da mais bela fazenda da região, não cabia em si de tanto orgulho. Organizou então uma churrascada na sua fazenda para comemorar o lucrativo negócio. Convidou amigos e parentes, inclusive seu Álvaro, o delegado local e para animar a festa mandou buscar até o Anastacinho, o melhor sanfoneiro do “pedaço”.

Depois de se empanturrar comendo duas cabeças de boi assadas, regadas a pura cachaça fabricada no alambique do seu Abelardo Blanco, o danado do Ezequiel, bêbado como um peru às vésperas de Natal, mandou Manelão buscar foguetes na Guia, pois queria comemorar a ocasião com um foguetório daqueles.

Esse acabou sendo o seu grande erro, pois os estampidos dos fogos assustaram os animais que, apavorados, saíram em disparada. Foi quando um vigoroso corcel arrebentou a baia na qual estava aprisionado, ganhando o pátio da frente da fazenda. 

E por incrível que pareça era o tal “cavalo sem cabeça”, isto é, com a luz do dia, pôde se ver perfeitamente que se tratava de um belo garanhão todo branco, com a cabeça pintada de preto até o pescoço. Não era mancha, era tinta mesmo!

O delegado sem muitas palavras entendeu toda a armação do facínora Ezequiel, e deu-lhe voz de prisão. Já na Delegacia de Polícia, o esperto Ezequiel confessou a trama e depois de tudo não lhe restou outra alternativa senão devolver a cobiçada fazenda a sua verdadeira dona, a viúva Claudina...

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