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Cuiabá, Março de 2019

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Almanaque Cuiabá

Casas típicas cuiabanas

As casas típicas da Cuiabá antiga, das quais restam apenas alguns exemplares no Centro Histórico, eram construídas umas encostadas às outras (geminadas).

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Não guardavam, via de regra, o espaço que hoje geralmente se deixa nos bairros residenciais, entre uma construção e outra, para fins de ventilação.

A aeração (ventilação) era compensada pelo “pé direito”, quase sempre alto, de cerca de quatro metros, e pela cobertura de telha de barro (tipo portuguesa), sem forros, o que a tornava a habitação adequada ao clima quente da região.

Eram também construídas sobre o alinhamento das calçadas, sem nenhum recuo, para maior aproveitamento do terreno. Os proprietários se preocupavam mais em deixar maior os amplos quintais, sempre transformados em pomares, onde predominavam frondosas mangueiras, cajueiros, abacateiros, laranjeiras, ateiras, etc., ao lado de canteiros de rosas, donde se originou o epíteto de “Cidade Verde”.

As casas construídas nos séculos XVIII e XIX tinham as fachadas encimadas pelos longos beirais que proviam as bocas de telhas coloniais.

Os beirais cuiabanos apresentavam vários tipos, havendo os de um recorte, de dois e até três recortes, sendo que estes últimos são seguramente raríssimos nas cidades históricas do Brasil, comumente denominados de eira, beira e tribeiras, daí o dito popular “sem eiras, nem beiras” para qualificar quem não tem nada...

Com o término da Guerra do Paraguai, em 1870, foi aberta a livre navegação dos principais rios da Bacia do Prata, entre eles o Paraguai e o Cuiabá, etc., os quais favoreceram a entrada de imigrantes europeus, sobretudo os italianos, espanhóis e árabes, etc.

Os italianos eram exímios artífices, ou seja, especialistas na construção de casas, inclusive introduzindo em Cuiabá a técnica do uso de “flandes”, hoje conhecido como zinco, que muda a fisionomia dos velhos casarões coloniais, adaptando o sistema de “platibandas”, utilizando calhas e condutores de água, as beiras, para a nova técnica.

As fachadas das habitações ostentavam comumente uma porta ao centro e quatro janelas (duas à direita da porta central e duas à esquerda), correspondendo às salas da frente da casa.

Ao centro um corredor geralmente de um metro e meio a dois de largura que dava acesso às dependências da casa, logo após as portas da entrada para as salas, estão as portas de acesso aos quartos (alcovas) à direita e à esquerda, terminando numa varanda, que ocupava a largura total do terreno.

A varanda era a peça mais importante da casa, pois era ali que se faziam as refeições e era o “ponto de encontro“ da família e parentes. Um novo corredor, quase sempre aberto em dois lados, protegido apenas por mureta, dava acesso a cozinha equipada com fogão de lenha e forno e também aos quartos dos criados e as despensas de mantimentos.

Fora da casa era construído um pequeno compartimento denominado “casinha”, que era a privada. Por não existir na época o sistema de vaso com sifão, a “casinha” era construída a distância da casa, devido ao seu mau cheiro. 

Ao lado do corredor sempre havia uma enorme área ajardinada, com roseiras e santas ritas, etc., onde também se situava no centro o poço, que na época abastecia a casa com o “precioso líquido”, a água.

Geralmente, as casas eram construídas sobre alicerce de pedra canga ou pedras de cristal, com paredes de taipas de pilão ou parede socada.

As paredes eram estruturadas com madeira de lei, em geral aroeira, com fortes esteios, sobre os quais se apoiavam o peso maior da estrutura do telhado, o que lhes permitia atravessar décadas e, às vezes, séculos.

Os pisos erram, em tempos mais remotos, de tijolos batidos, passando-se posteriormente ao uso de mosaicos (ladrilhos hidráulicos) de diferentes cores e belos desenhos, trazidos também pelos italianos.

SEM EIRAS, NEM BEIRAS
Nos dias de hoje é difícil encontrar um cuiabano que saiba explicar o significado desse velho fraseado “sem eira, nem beira”. Sabe sim, que se trata de uma frase meramente simbólica que serve para menosprezar alguém, coisas do tipo “João Ninguém” ou “Aquele fulano não tem onde cair morto...” dentre outras.

Pois, sim, esta antiga frase do “sem eira, nem beira” está ligada fortemente ao passado histórico da nossa querida terra.

No século XVIII, quando a colonização portuguesa dominava nossas minas auríferas, o sítio urbano cuiabano era compreendido desde o Largo da Mandioca, onde existia o Palácio dos Capitães-Generais até o Córrego Cruz das Almas, onde se localiza hoje a Praça Ypiranga (antiga Marquês de Aracaty).

As casas eram tipicamente portuguesas “com certeza”, construídas umas ao lado das outras (geminadas). Esse procedimento aumentava sua segurança em relação aos ataques dos índios, mesmo porque as janelas situadas nos flancos das casas facilitavam a penetração dos gentios.

Portanto, a cumeeira única no centro das casas possibilitava duas águas, ou seja, uma caindo para frente, outras para trás dos prédios, que eram construídos geralmente de parede socada, ou mesmo de pau a pique, abarrotada.

Os telhados, confeccionados de telhas de barro cozido, possibilitavam um enorme beiral, isto porque diminuía os fortes respingos das chuvas nos pés da parede.

Os proprietários de maior poder aquisitivo se davam ao luxo de enfeitar a frente da casa, mandando fazer certo adorno, colocando logo abaixo do beiral, moldados com a própria telha, aplicando para isso um tipo de argamassa composta de areia de goma e garapa (caldo de cana), surgindo daí as expressões eiras, beiras e tribeiras. Quanto mais rico o “gajo” era, mais eira tinha a sua casa...

Este costume só veio acabar quando, após a Guerra do Paraguai, já no século XIX, a imigração italiana e espanhola trouxe alguns novos costumes a vida do cuiabano, dentre eles a nova técnica dos “flandes” que consistia em coletar água do telhado, através de condutos, permitindo com isso elevar mais a parede da frente das casas, criando, enfim, as “platibandas”. 

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