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Cuiabá, Dezembro de 2017

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Almanaque Cuiabá

Conhecendo o autor

A professora Madalena Machado conseguiu resenhar célebres publicações de contos dos autores Severino Queirós, Cesário Prado e J.Terra (pseudônimo de Prado) em jornais como a A Cruz, Correio do Estado e O Matto Grosso, entre outros. Tem aúfa de estórias!

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Madalena Aparecida Machado é doutora em Teoria Literária pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e tem pós-doutorado em Literatura Brasileira pela Universidade Sorbonne, na França. 
Além disso, coordena o Núcleo de Pesquisa em Literatura Manoel de Barros e é líder do grupo de pesquisa ‘Literaturas na interface entre o clássico e o contemporâneo’, cadastrado no Conselho Nacional de Desenvolvimento científico e Tecnológico (CNPq) desde 2008.
A professora do curso de Letras da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), é autora de várias obras como  ‘O homem da pós-modernidade: a literatura em reunião’ e ‘A literatura de Ricardo Dicke: Intervenções críticas’ .

DA AUTORA
Contistas mato-grossenses delimitam o espaço da literatura na publicação de suas narrativas em jornais. O teor dos textos bem como o trabalho de arranjo literário demonstra a dimensão humana captada na sociedade de Mato Grosso no início do século XX.

Severino QueirósA forma narrativa do conto propicia explorar a realidade sob uma perspectiva desvinculada da obrigatoriedade em seguir padrões rígidos. Narrativa que acompanhou a evolução da imprensa e publicações periódicas, o conto por meio da particularização de seu conflito tende a captar a individualidade. Assim, à medida que o modo de vida prosaico da sociedade foi ganhando mais espaço na literatura, foi o conto que traduziu anseios, vinculou o lado pragmático da vida cotidiana na expressão literária publicada em jornais. Com o desfacelamento do enredo observado no romance, o jeito de contar a vida se firma pela aproximação da dimensão poética. Percepções, sentimentos captados nos contos procuram dar conta desse uso cotidiano da palavra no qual as publicações diárias disseminaram. Um exemplo de tal premissa são os contos de Severino Queirós (1893-?) publicados em Cuiabá no jornal A cruz, fundado em 1910 tendo colaborado de 1926 a 1931. As narrativas revelam uma faceta da literatura mato-grossense pouco conhecida do grande público.

"A escrita literária típica do escritor Severino de Queirós de um tom marcadamente doutrinário ou conselheiro tem como característico o epílogo de teor moral, impresso em itálico. Ainda narrativas de acontecimentos, não deixam, entretanto, de denotar uma revelação moral, observações filosóficas e certa finura psicológica à moda machadiana. O jeito cuiabano de ser transparece a cada publicação, ora ritmado por causos em que o narrador experiente ganha e convence o ouvinte leitor, ora pelo envolvimento traçado com o pensamento do autor sobre os temas mais variados. Queirós ao abordar assuntos como a escravidão, a diferença social, lendas e costumes populares, o jaguncismo, a inveja nas relações fraternas, o comunismo, busca no entretecer do caráter literário de seus textos, a modificação da visão de mundo do leitor. Isto é possível comprovar pelo moralismo que observamos em cada narrativa na qual predomina uma visão que é considerada a correta à qual o narrador pretende conduzir o leitor."

Cesário Prado (1891- 1969) é um caso singular em se tratando dos contos publicados 92 Edição nº 010 - Julho 2011 nos jornais de Mato Grosso no início do século XX. Também assina suas produções com o pseudônimo de J. Terra, ambos possuem uma profundidade filosófica capaz de apontarmos o estilo particular do escritor. Tratemos inicialmente daquelas narrativas assinados com seu nome civil. No conto “Farwell” (1928) discute a dicotomia entre a vida sedentária e a nômade, os prazeres das descobertas, paisagens, climas, pessoas. O narrador pondera sobre as vantagens e desvantagens de cada uma observando razões e interesses encontrados nelas. O sedentário segundo ele, tem a vantagem de realizar as mesmas descobertas sem sair de seu quarto, paisagens, lugares, gentes que podemos encontrar nas leituras de revistas, jornais e romances. Enquanto o viajante de turismo ou negócios pode variar sempre sem se fixar em nenhuma, tem o prazer da rememoração, das lembranças, das velhas amizades que perduram apesar do tempo e da distância. Têm histórias, emoções, experiências para contar enquanto o sedentário trabalha mais com a imaginação.

“Em relação a Severino Queirós, Cesário Prado/J. Terra, por sua perspicácia filosófica, introspectiva, produz uma narrativa mais aprofundada. Desde considerações sobre um modo de vida até ao tratar do destino humano, seus contos priorizam o lado reflexivo ainda mais que a abordagem dos acontecimentos em si. As consequências de uma opção de vida, o papel das aparências nas relações humanas, são fatores com os quais podemos identificar a peculiaridade de sua escrita literária. Ressaltada a diferença no nível estético literário entre o que se produzia nos jornais de Cuiabá no início do século XX, o que mais nos chama a atenção no estilo bastante particular de Cesário Prado é uma modernização seguindo a tendência do que era produzido literariamente nos grandes centros do país naquele período. O mato-grossense fica bem à vontade ao explorar junto à fragmentação do enredo (os acontecimentos são secundários) a fragmentação dos valores, das pessoas ao informar neste sentido a índole bem humana em seus textos.”

Em relação a Severino Queirós, Cesário Prado/J. Terra, por sua perspicácia filosófica, introspectiva, produz uma narrativa mais aprofundada. Desde considerações sobre um modo de vida até ao tratar do destino humano, seus contos priorizam o lado reflexivo ainda mais que a abordagem dos acontecimentos em si. As consequências de uma opção de vida, o papel das aparências nas relações humanas, são fatores com os quais podemos identificar a peculiaridade de sua escrita literária. Ressaltada a diferença no nível estético literário entre o que se produzia nos jornais de Cuiabá no início do século XX, o que mais nos chama a atenção no estilo bastante particular de Cesário Prado é uma modernização seguindo a tendência do que era produzido literariamente nos grandes centros do país naquele período. O mato-grossense fica bem à vontade ao explorar junto à fragmentação do enredo (os acontecimentos são secundários) a fragmentação dos valores, das pessoas ao informar neste sentido a índole bem humana em seus textos.

Estêvão de Mendonça, resenha J. Terra - Estevão de Mendonça no prólogo do conto “A solidão” se manifesta a respeito da literatura de J. Terra acentuando que a ideia de crítica de costumes ou resenha de fatos são os assuntos favoritos de sua produção artística dosadas com deduções filosóficas. Cabe neste sentido averiguar em que medida o jogo de aparência e essência motiva o autor a ampliar sua observação sobre o destino humano. Fatos cotidianos que marcam o início de uma amizade por meio da antipatia; amor e compaixão juntos na história de vida do narrador; o triângulo amoroso que separa irmãos; os prazeres e inconvenientes da solidão à vida humana; amizade, amor e ódio dividindo antigos amigos que leva ao ponto máximo do assassinato. Temas que movimentam a literatura de J. Terra/Cesário Prado naquele iní- cio de século, compondo junto a Severino Queirós um painel da vida cuiabana de então.

Os três contistas aqui reunidos têm em comum a capacidade de abertura para situações que, embora pareçam corriqueiras, falam alto ao destino humano e mesmo sobre a vida em continuação. Enquanto contos, seus textos flagram determinado instante que 97 Edição nº 010 - Julho 2011 fazem o humano se enxergar como tal; prioriza um modo de entender típico das relações em construção a cada ódio manifesto, amor em descoberta, fraternidade ilusória ou não compõem o quadro humano dos anos iniciais de 1910 em Mato Grosso. Numa época em que a maioria dos literatos ainda escrevia com tendências românticas, a modernidade das narrativas pode ser notada na observância do estado de crise em que se encontram determinados personagens. Os possíveis sentidos de cada situação, o conjunto de recursos narrativos utilizados, o teor de implicações psico-filosóficas também determinam o espírito de novidade dessa literatura publicada em jornais. O homem que procura se situar, a vazão de sentimentos, o efeito deles extraído são passos amiudados possíveis de serem encontrados na contística mato-grossense. Como enfatiza Walnice Nogueira Galvão (1983), “o conto faz parte da tomada do poder literário pela prosa de ficção impressa, e mais especificamente pela prosa publicada em jornal diário (p. 168)”. A literatura que deseja se fixar em Mato Grosso no início do século XX procura, dessa maneira, o processo de democratização da leitura; o fato de serem narrativas publicadas cotidianamente conduz às perspectivas de ampliação do olhar crítico sobre o dado social, as relações pessoais e, principalmente, a introspecção dos acontecimentos nos quais os personagens e o próprio narrador estão envolvidos.

Nesta plataforma do Almanaque Cuiabá apresento um painel da vida mato-grossense daquele período e o quanto aquelas narrativas são singularizadas pelo conto, presente de forma cotidiana nos jornais A cruz e O Mato Grosso. 

OS JORNAIS - Referências bibliográficas
GALVÃO, Walnice Nogueira. “Cinco teses sobre o conto”. In: SANT’ANA, Afonso Romano...
[et al...], O livro do seminário (org.) Domício Proença Filho. São Paulo: Nestlé, 1983
NADAF, Yasmin. Rodapé das miscelâneas: o folhetim nos jornais de Mato Grosso, séculos
XIX e XX. Rio de Janeiro: 7Letras, 2002
PRADO, Cesário. “A parábola da eternidade”. Jornal A cruz. s/nº, Cuiabá, 1942
_____. “Farwell”. Jornal A cruz. s/nº, Cuiabá, 1928
_____. “Soror Martha”. Jornal A cruz. s/nº, Cuiabá, 1928
_____. “O carro da ilusão”. Jornal A cruz. s/nº, Cuiabá, 1927
_____. “A pele do teatro”. O Mato Grosso, de Cuiabá, n.1526, 24 nov. 1918, p.2
_____. “Djerane, o astuto ou com as mesmas moedas”. Jornal A cruz. s/nº, Cuiabá, 1941
QUEIRÓS, Severino. “O cangaceiro arrependido”. Jornal A cruz. s/nº, Cuiabá, 1928
_____. “A trovoada”. Jornal A cruz. s/nº, Cuiabá, 1927
_____. “Chico Palhaço e a caveira”. Jornal A cruz. s/nº, Cuiabá, 1928.
_____. “O doutor Raiz”. Jornal A cruz. s/nº, Cuiabá, 1931.
_____. “A vida do criminoso”. Jornal A cruz. s/nº, Cuiabá, 1927.
_____. “O grande perigo”. Jornal A cruz. s/nº, Cuiabá, 1930.
_____. “A inveja”. Jornal A cruz. s/nº, Cuiabá, 1927.
_____. “André Tripa”. Jornal A cruz. s/nº, Cuiabá, 1930.
_____. “A besta apocalíptica”. Jornal A cruz. s/nº, Cuiabá, 1929.
_____. “Pai Domingos”. Jornal A cruz. s/nº, Cuiabá, 1929.
98
Edição nº 010 - Julho 2011
_____. “O peludo”. Jornal A cruz. s/nº, Cuiabá, 1931.
SANT’ANNA, Affonso Romano de. et al. “Conto”. O livro do seminário (org.) Domício
Proença Filho. São Paulo: Nestlé, 1983.
TERRA, J. “Dreaming”. Correio do Estado, de Cuiabá, n.24, 10 abril 1921, p.2.
_____. “Entre irmãos”. Correio do Estado, de Cuiabá, n.49, 16 out. 1921, p.2-3.
_____. “Os vizinhos”. Jornal O Mato Grosso, nº 1818, Cuiabá, s/d.
_____. “Rosinha, a do sobrado”. Correio do Estado, de Cuiabá, n.55, [rasurado] dez.1921,
p.3.
_____. “A solidão”. Jornal O Mato Grosso, nº 1816, Cuiabá, 1922.
_____. “Os amigos”. Jornal Correio do Estado, de Cuiabá, n.23, 3 abril 1921, p.2.
_____. “Black”. Jornal Correio do Estado, de Cuiabá, n.54, 20 nov. 1921, p.3. 

 

 

 

 

 
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