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Cuiabá, Agosto de 2020

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Recortes do Cinema em Mato Grosso

Senão vejamos. Em 1988, quando iniciei a preparação das bases referenciais para elaboração do mencionado projeto sobre o cinema, deparei-me com um universo de informações dispersas e repleto de lapsos temporais, onde o presente e o passado pareciam instâncias inarticuláveis.

Recortes do Cinema em Mato Grosso

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O Estado de Mato Grosso tem sido apontado como referência no Brasil, onde a trajetória do cinema brasileiro na região conseguiu formar um novo campo de conhecimento adquirido a partir da recente publicação, em 2008, da pesquisa Memória e Mito do Cinema em Mato Grosso, de minha autoria, editado pela Editora Entrelinhas.

Grande parte deste mérito se deve a abordagem e tratamento do tema, em que a partir do interesse e estudo da obra e as contribuições de um cineasta estrangeiro ao desenvolvimento do cinema brasileiro – o sueco Arne Sucksdorff – se promoveu um inventário e o testamento do cinema produzido na região. Desta forma, inseriu-se o cinema mato-grossense em importantes discussões do cinema, em especial no que diz respeito ao documentário. Tamanha repercussão confere uma imensa responsabilidade à pesquisa publicada e por consequência implica também no surgimento de paradigmas inerentes ao campo de conhecimento em processo de formação como também à pesquisa propriamente dita.

No plano geral há que se perguntar: até que ponto uma pesquisa isolada pode contribuir para o desenvolvimento de uma sociedade, ou mesmo uma única instituição, e neste caso se tornar referência? Questão que desenvolverei adiante, a partir de problematizações de caráter específico da pesquisa em pauta que, a meu ver, ilustram e elucidam melhor a relação proposta e os caminhos percorridos desde a sua realização.

O primeiro ponto a ser considerado se trata da organização das fontes e referências – a documentação propriamente dita. Tanto as de natureza secundária – as publicações e demais documentos – quanto as de natureza primária: neste caso, os filmes e seus acervos.

O segundo ponto é referente ao método e às escolhas de sua abordagem, no que diz respeito ao tema e também a suas fontes e referências.

Para pesquisadores provenientes de áreas acadêmicas, cuja pesquisa científica ocupa um papel maior na formação, como por exemplo, nos cursos de História, Ciências Sociais, estas questões podem ser tratadas de uma forma mais natural. Mas para uma infinidade de pesquisadores provenientes de outros campos, como é meu caso, tais questões podem ser aterradoras e mortificantes em sua primeira abordagem.

Senão vejamos. Em 1988, quando iniciei a preparação das bases referenciais para elaboração do mencionado projeto sobre o cinema, deparei-me com um universo de informações dispersas e repleto de lapsos temporais, onde o presente e o passado pareciam instâncias inarticuláveis. Neste quadro, constituíam-se exceção as publicações Alma do Brasil e Esboço Histórico do Cinema em Mato Grosso, de José Octavio Guizzo, precursoras da construção da memória do cinema na região. Uma contribuição capital, porém vinculando o passado cinematográfico mato-grossense à iconografia do Mato Grosso do Sul. Guizzo, através do cinema, iniciava a difícil e obsessiva tarefa de construção das raízes da cultura de um novo Estado formado a partir de sua divisão territorial promovida pelos interesses políticos regionais, mas principalmente pela política do regime militar.

Em que pese a escassez das informações sobre o cinema em Mato Grosso, o acesso às suas fontes era tão pouco facilitado. Estas se encontravam espalhadas nas bibliotecas e acervos do país, em especial nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. O que serve de alerta aos pesquisadores, o longo e difícil percurso para acessar a documentação original do cinema em Mato Grosso. O péssimo estado em que muitas destas se encontravam impõe a necessidade de uma urgente reedição das publicações, em especial, as acima mencionadas de Guizzo. Neste ponto, cabe esclarecer que a memória do cinema no Estado, oriunda da mencionada pesquisa, foi de certa forma um acidente de percurso do projeto original. Isto porque, quando me ingressei no programa de Mestrado da Pós-Graduação da Escola de Comunicação e Artes da USP, sob orientação da Prof. Dra. Maria Rita Eliezer Galvão, o tema original era a figura do cineasta Arne Sucksdorff, a sua passagem pelo cinema brasileiro, a defesa do meio-ambiente expressa na preservação e conservação do Pantanal Mato-grossense e as contribuições de sua esposa Maria Graça de Jesus Sucksdorff.  Porém, quando da minha primeira entrevista com a orientadora, apareceram as primeiras dificuldades à proposição inicial.

Havia a restrição à inserção de Arne Sucksdorff em Mato Grosso, uma vez que pouco, ou quase nada, se conhecia sobre o cinema na região, exceto o que foi publicado nas escassas fontes anteriormente mencionadas. Portanto, a questão das fontes de pesquisa, ou seja, a ausência delas sobre o cinema no Estado, impedia o cumprimento do projeto. Deveria ser adequado, o que provavelmente teria sido mais fácil, ou retornava ao estado e buscava outras fontes para a construção do conhecimento da memória do cinema.

As fontes e referências para a pesquisa do cinema no estado se colocavam como condição primordial para sua continuidade! Poderia ainda optar pela realização de uma pesquisa oral, caso contrário se buscasse outras fontes. O primeiro caminho foi descartado, dado o período da pesquisa: 1886, da primeira sessão em Paris, a 1970, quando da chegada de Sucksdorff ao Estado. Um período histórico desta monta exigia outro tipo de fonte. Não só pela dificuldade de encontrar depoentes vivos, mas dada a necessidade de um rigor mais sistêmico na análise, não tão suscetível a lapsos de memória, ou até mesmo, a tendência de todo depoente a por vezes supervalorizar suas contribuições/rememoração como forma de se inserir na história. Portanto, a ausência de fontes e conhecimento anterior não permitia um recorte no período porque inviabilizava o estabelecimento das conexões de temporalidade propostos: o passado e o presente. A pesquisa oral, porém, seria utilizada em outro momento, com os alunos do curso, sobre um tempo mais próximo – os anos sessenta.

A esta altura, se apresentavam como uma importante fonte de documentação, ainda que secundária, os arquivos da imprensa mato-grossense depositados no Núcleo de Documentação e Informação Histórica Regional da Universidade Federal de Mato Grosso (NDHIR/UFMT) – com documentos em razoável estado de conservação e acessibilidade. Quando em contato com esta fonte, a questão do método, neste caso o historiográfico, se colocava de forma mais reveladora. A documentação da memória da imprensa mato-grossense apresentava inúmeras lacunas no período pesquisado, tornando impossível qualquer rigor e não permitindo outro tratamento metodológico que não o do recorte indiciário.

A utilização de uma fonte de ricas informações, como a imprensa, coloca algumas questões à pesquisa. A primeira delas é o surgimento de um universo extraordinário de informações que causam ao pesquisador uma vertigem num primeiro olhar. Assuntos diversos surgem referentes à política, economia, crônica social, artigos, anúncios publicitários, dentre outros, o que permite um amplo conhecimento de uma época, porém torna difícil a decisão de quais informações reter. O outro é de natureza da veracidade do conteúdo das informações. O fato registrado tem diversas naturezas, a de relatos, a de opiniões, e por vezes discursos adequados ou não aos interesses editoriais. Questões estas que se não invalidam sua utilização, todavia implicam em cautela.

Desta forma, uma vez conhecida a trajetória do cinema no Estado, o cineasta Arne Sucksdorff e sua esposa Maria poderiam ser situados em seu tempo com suas contribuições devidas e assim a pesquisa poderia ser concluída em seu projeto original, o que acabou ocorrendo em 1990 e resultou em três volumes da mencionada coleção: Memória do Cinema em Mato GrossoMito do Cinema em Mato Grosso e Filmografia do Cinema em Mato Grosso.

Uma pesquisa embora não publicada encontra caminhos próprios. Até que ponto ela transforma e instrumentaliza a vida de quem a produz e também de uma sociedade? O que se segue trata de uma digressão acerca de uma rememoração inédita que realizo sobre um período posterior ao pesquisado, a partir dos anos 1990, o que pode ser compreendido como um testemunho pessoal de uma vivência na tentativa de reinserção do cinema na memória social de uma sociedade tendo por referência a realização de uma pesquisa científica.

Enquanto aguardava sua publicação, os resultados da pesquisa forneceram um importante lastro e direção ao desenvolvimento de um conjunto de ações que resultou num período de maior efervescência do cinema em Mato Grosso. No meu retorno à região, em 1990, em minha bagagem trazia as ricas informações prospectadas e o projeto de um filme que eu havia desenvolvido por ocasião de uma oficina de cinema, a Oficina 3 Rios da Secretaria de Cultura daquele estado. Tantas Águas… Tantos Homens, um média-metragem de ficção, trata dos momentos difíceis dos expedicionários da Expedição Langsdorff em sua passagem por Mato Grosso. Nesse período a única referência sobre o cinema em Mato Grosso era a produção comercial de Hollywood, que chegava com atraso nas duas únicas salas em funcionamento precário em sua capital: o Cine Bandeirantes e o Cine Teatro Cuiabá.

O circuito alternativo do Cine Clube Coxiponés da UFMT, sob o comando de Clovis Resende de Matos e Epaminondas Carvalho, desde sua criação em 1977 oferecera uma regular exibição de filmes de arte de diversas cinematografias em 16 milímetros, no momento encontrava- se reduzido. Este ambiente contribuía para impor aos mato-grossenses um sentimento de impossibilidade de produzir filmes na região! Até mesmo os poucos profissionais do audiovisual que atuavam no mercado – em sua maioria voltados para as produções de televisão e publicidade – produzir filmes na região era uma utopia. O que não impediu o surgimento de importantes experiências estéticas em vídeo e que ocupavam, ainda que de forma pequena, um espaço na grade de programação das televisões que veiculavam produções regionais, conceito este que nem exista naquele momento.

O silêncio de referências sobre o cinema no estado começa a ser quebrado nos anos 90, quando aparece em 1992 na cidade de Campo Grande – MS o livro História de Vida, organizado por Maria da Gloria Sá Rosa, Adélia Maria Rodrigues e Idara N. Duncan, editado pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul. As organizadoras dedicam um capitulo à memória do cinema quando o Mato Grosso ainda era uno.

A questão da divisão política do estado não consegue apagar a memória de sua história em comum e implica em mais uma questão a ser resolvida pelos pesquisadores. Ainda neste estado, em 1996, Marta Guizzo, viúva de José Octavio Guizzo, falecido em 1988, consegue publicar uma pesquisa que seu marido levara 17 anos para concluir. Glauce Rocha, Atriz Mulher Guerreira, editado pela Hucitec, uma biografia da enigmática e talentosa atriz mato-grossense. Neste mesmo ano em Cuiabá, Aníbal Alencastro publica Anos Dourados dos Nossos Cinemas- Antigas Salas de Projeções de Mato Grosso, editado pela então recém-criada Secretaria de Cultura deste estado. Alencastro, a partir de fontes orais e documentos, narra de forma vivaz a história das salas de cinema de Cuiabá. Anos mais tarde, em 2003, Alencastro retornaria às suas rememorações sobre o cinema na região com a publicação de Cuyabá, Crônicas e Lenda, no qual dedicou um pequeno capítulo intitulado “Primeiros Cinemas”. Ainda que convidado por Alencastro para fazer a apresentação de seu primeiro livro, o que me marcou pela sua deferência, a atividade de pesquisador não me parecia animadora.

Optei em continuar o projeto de produção do filme apresentando-o à administração superior da UFMT, que preferiu não apoiar alegando se tratar de um investimento arriscado cujo retorno seria em médio prazo. Foi quando decidi realizar uma exposição de arte na recém-inaugurada Galeria Pádua, na Getúlio Vargas, desconstruindo o processo de realização do cinema e, neste caso, fornecendo as referências científicas da pesquisa do roteiro do filme. O recado fora dado e o apoio da UFMT aconteceria por outra via!

Entusiasmado com o cinema, o professor Abílio Camilo Fernandes decidiu investir no projeto, através do programa UNESTADO, financiando a capacitação de agentes locais através do Núcleo de Cinema. O curso trouxe a Cuiabá a experiência de importantes profissionais do cinema brasileiro: Carlos Reichenbach, Denoy de Oliveira, André Prata, produtor do filme, Débora Ivanov, Eduardo Santos Mendes, Dib Lutfi e Eduardo Leone. A realização causou enorme movimentação em Cuiabá e resultou na produção de três curtíssimas metragens, de um minuto cada, porém realizados em 35 milímetros. Olhos, Luz e Espelho era uma livre interpretação da poesia de Augusto dos Anjos. Desta oficina participaram Ana Paula Pinto Duarte, Vincent Arnaud, Nicélio Acácio, Lucia Palma, André Nishizaki, Rodrigo Agnolon, Carla Cartocci, Douglas Ronchi Filho, Cassiano Pires, Wagton Douglas, Leonie Vitório, Justino Astrevo, Sandra Laerte, Mara Ferraz, Fernando Castrillon, Maria Cândida Ferreira e Almeida, Lucia Palma e Marcos Vergueiro. Os atores foram Wagton Douglas, Vera Capilé e sua filha Juliana, Douglas Ronchi Filho, Carla Cartocci e, na figuração, a participação de Naire Cartocci Borges. Os filmes foram selecionados e apresentados no Guarnicê Cine-Vídeo, um dos importantes e antigos festivais de cinema brasileiro realizado em São Luís, no Maranhão e na cidade de Cuiabá por ocasião da Mostra Brasileira de Cinema e Vídeo de Cuiabá que surgiria em seguida.

Tomados pelo entusiasmo, os jovens participantes da oficina, ao seu encerramento, decidiram transformar a experiência numa associação, que se chamaria Núcleo de Cinema de Mato Grosso. Em frente desta associação, promovemos a abertura de um circuito de exibição de filmes de arte no Cine-Teatro Cuiabá, sala com capacidade para 600 espectadores, e outra menor com 109 lugares. O cinema, um belo patrimônio histórico de propriedade do estado, encontrava-se arrendado a um exibidor particular, Walter Furtado, que anos mais tarde o entregaria totalmente destruído, e que permanece fechado por mais de 15 anos.

Uma rica e contemporânea produção de filmes foi organizada sob o título Chuva de Cinema, uma menção ao prazer que os mato-grossenses têm com a chuva, e se realizava todas as terças-feiras, às 22 horas, única sessão cedida pelo exibidor, ainda assim na sala menor. O filme de estreia foi Asas do Desejo, de Wim Wenders, e apesar de ser num dia de semana, num horário tão tarde, apareceram cerca de 350 espectadores. Isto motivou a realização de uma segunda sessão iniciada à 1 hora da madrugada, que permaneceu lotada, assim como nos filmes subsequentes.

Em que pese a agitação no setor de difusão de filmes, a pesquisa permanecia sem publicação e o projeto do filme teve que ser interrompido porque a produção que iniciara em São Paulo não obtivera, em Mato Grosso, os recursos necessários, entre estes a indispensável remuneração da equipe. Era preciso fazer com que a atividade pudesse gerar rendas e postos de trabalho, única forma de estimular e iniciar a construção ainda que incipiente de um mercado de produção de filmes na região.  É importante lembrar que, naquele momento, não existia um mecanismo de fomento, o que motivou a luta pela sua criação e a aprovação, na Assembleia Legislativa do Estado, do projeto de um fundo de fomento para a atividade, o FUNCINE, de autoria da então deputada Serys Selesharenko, e anos mais tarde da Lei de Incentivo à Cultura – Hermes de Abreu. O fundo nunca foi implementado; a lei teve uma melhor sorte.

A questão que se colocava naquele ambiente não era apenas realizar um único filme. Era preciso torná-lo mais favorável ao desenvolvimento do cinema! O que veio acontecer com a mudança na administração superior da UFMT.

Recém-nomeada Coordenadora de Cultura, a professora Marina Muller de Abreu Lima me convidou para assumir a supervisão do Cine Clube Coxiponés, quando promovi a reestruturação de suas atividades, tanto no que diz respeito à difusão, como à possibilidade de constituição de um acervo fílmico na região. Como primeira atividade frente à supervisão, a qual dirigi por oito anos, organizei uma mostra de filmes chamada Retrospectiva do Cinema Mato-grossense, passo importante para iniciar o resgate da memória do cinema regional.  Nesta mostra, do passado constava apenas um único filme que se tinha disponível à época nos arquivos brasileiros, o clássico Alma do Brasil, de Líbero Luxardo e Alexandre Wulfes, de 1936. Do presente, constavam apenas os curtas-metragens oriundos do Núcleo de Cinema.  De forma adicional à mostra, foi exibida outra sobre a recente produção de curtas-metragens paulistanos chamada Cinema Cultural Paulista. Organizada pelo Museu da Imagem e do Som de São Paulo e produzida pelo cineasta Francisco César Filho, para sua realização vieram a Cuiabá os cineastas Tata Amaral e Joel Pizzini. César Filho e Tata Amaral retornariam anos mais tarde para ministrar um curso de produção cinematográfica, que resultou na iniciação e surgimento de novos nomes na produção do estado, entre eles Bruno Binni, Keiko Okamura, Julio Bedim, Luciana Prieto e Rômulo Fraga.

Retornando à mostra, para sua realização uma cabine de projeção 35 mm de propriedade de José Luis Almeida foi trazida de São Paulo e instalada no auditório da Escola Técnica Federal – ETF.  Após a exibição dos filmes sucedeu uma palestra proferida pelos professores convidados do curso de História da UFMT, Carlos Bertolini e Luis Galleti. Diante do prestígio conquistado, consegui convencer a administração superior da UFMT a iniciar o processo de aquisição do acervo cinematográfico de Lázaro Papazian, o primeiro que a minha pesquisa apontava como existente ainda no estado. O acervo encontrava-se guardado na residência de seu filho Gonçalo Papazian. Eram centenas de latas de filmes em super 8, 16 milímetros; milhares de fotografias expostas à umidade e calor, tudo acondicionado ainda em embalagens inapropriadas: sacos plásticos e latas de ferro. Assim encontrava-se o legado de Lázaro Papazian à memória dos mato-grossenses: num avançado estágio de degradação. Através de uma portaria, a reitora, Prof.ª Luzia Guimarães, instituiu uma comissão formada por técnicos e especialistas para avaliar e adquirir o acervo para a universidade. Desta participaram a Prof.ª Kátia Meireles, representando o Departamento do curso de Comunicação; Edson Alves Viana, da Coordenação de Material; Arydes Aires da Costa, da Procuradoria Jurídica; e eu, representando o Cineclube.  Processo este que se arrastou por dois anos, dada as dificuldades em reunir todos os herdeiros, seus filhos e principalmente a obtenção de um consenso entre eles no que diz respeito ao valor do acervo.

O equivalente a 20 mil dólares foi a quantia final acertada. Assinado o contrato de aquisição, no dia 25 de abril de 1994 o acervo de Lázaro Papazian foi removido para o Cineclube. As 178 latas de filmes foram prontamente enviadas para a Cinemateca Brasileira em São Paulo, para dar início aos procedimentos de conservação e a transferência das imagens para o vídeo VHS.  Assim poderíamos assistir e identificar o seu conteúdo e priorizar o restauro. O Cineclube não possuía instalações adequadas para receber o acervo. Na ocasião estava instalado no prédio da reitoria, anexo à Biblioteca Central, onde as fotografias tiveram que ser guardadas provisoriamente.

O convênio firmado com a Cinemateca Brasileira resultou na vinda a Cuiabá da museóloga e restauradora Fernanda Coelho para orientar os procedimentos de conservação e preservação das fotografias e adequação de uma nova instalação. Na oportunidade, Fernanda Coelho ministrou o curso Introdução à Preservação, Conservação de Acervo Foto-Cinematográfico, realizado no auditório do INSS pelo fato da universidade estar em greve.

O objetivo do curso era treinar os servidores do Cineclube, porém foi aberto a toda a comunidade da capital do estado. Pela primeira vez se reuniram pesquisadores do Arquivo Público do Estado, Assembleia Legislativa, Museu da Imagem e do Som de Cuiabá, os técnicos dos acervos dos jornais e televisões da cidade, entre estes Aníbal Alencastro, Isis Catarino, Sofia Amiden, Edewiges Maria Villá.

Encerrada a capacitação, começaram as adequações da parte da antiga Casa dos Estudantes, que levou meses. Porém, fomos surpreendidos no momento seguinte após a entrega das chaves: descobrir que não abria a porta de entrada da área reformada.  A euforia em instantes se tornou uma decepção! Soubemos mais tarde que, sem nos comunicar, a administração da UFMT havia dada outra destinação ao espaço e instalado o PCBAP - Programa de Conservação da Bacia do Alto Paraguai. Trabalho perdido, recurso público jogado fora!

O acervo retornou para o prédio da Biblioteca, ao lado do Cerimonial, onde meses depois uma funcionária deste órgão deixou uma máquina de escrever ligada após o encerramento do expediente. Nesta madrugada, o superaquecimento da máquina iniciou um grande incêndio no prédio, que se alastrou invadindo a sala onde se guardavam as becas dos formandos, por fim, atingindo o acervo que ficava na divisória seguinte.

Mais de cinco mil fotos foram queimadas, por sorte os filmes não tiveram o mesmo destino. Naquele momento, todos os funcionários do Cineclube entraram em comoção, alguns choravam de indignação e vergonha, as televisões e jornalistas querendo informações, os bombeiros apagando focos do incêndio. Aquilo parecia um pesadelo! Uma comissão de sindicância foi instaurada e constatou a versão acima exposta.

A origem do acervo, sua condição e a sua incorporação ao patrimônio da UFMT aparece somente agora em primeiro lugar porque não constava das publicações subsequentes sobre o acervo, nem mesmo dos documentários realizados sobre Lázaro Papazian. Em segundo porque, quando em  função da publicação da minha pesquisa, a editora Maria Tereza Carracedo, que desconhecia esta versão e ficara surpreendida, me relatou outra que era comentada entre as autoridades e intelectuais mato-grossenses: o incêndio ocorrera porque algum funcionário do Cineclube tinha deixado um cigarro de maconha aceso. Versão esta que, além de imaginosa, é reveladora mais uma vez do tratamento dispensado ao cinema em Mato Grosso. Além do descaso, agora o preconceito.

Anos mais tarde, o Cineclube foi transferido para o prédio do novo Centro Cultural da UFMT, mais uma instalação inadequada, onde o acervo sofreria mais um ataque, o das chuvas.

Era um paradoxo o tratamento que a administração de uma instituição de ensino e pesquisa como a UFMT dispensava a este acervo. O que para ela acabou se transformando num grande problema e, em 2007, decidiu presentear a Prefeitura de Cuiabá com sua doação, no dia do aniversário da cidade, acreditando se livrar de sua responsabilidade. Mesmo que tenha sido avisada deste absurdo.

Quando se pensa em um museu, a primeira coisa que vem em mente é a existência de um acervo guardado em condições adequadas para sua conservação e preservação; em seguida, um corpo de pesquisadores e técnicos para gerar conhecimento sobre o acervo; por último, que este possa ser exposto ao público. Nenhuma destas condições ocorrem no recém-criado Museu da Imagem e do Som de Cuiabá – MISC, ao qual se adicionou o nome do cinegrafista armênio e seu acervo. O local de acondicionamento e a sua gestão são inadequados e constituem-se como uma ameaça à memória dos mato-grossenses.

Mas nem tudo parece desolador em se tratando do cinema em Mato Grosso. Ainda que a constituição de acervo pelo Cineclube não tenha frutificado na UFMT, por outra via, nesta mesma instituição, de forma simultânea, iniciava-se uma ação que seria responsável por um dos mais importantes momentos vividos do cinema em Mato Grosso, inclusive no que diz respeito à sua memória e a sua pesquisa. Em 1993, através do convênio Pluripartite, o de número 001/93 entre a UFMT, Governo do Estado, Prefeitura de Cuiabá, Federal das Indústrias e SEBRAE-MT, nasce a Mostra Brasileira de Cinema e Vídeo de Cuiabá, que mais tarde foi transformada no Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá.

A sua realização aconteceu num difícil momento do cinema brasileiro, pois a produção encontrava-se em plena recessão e os produtores iniciavam o que mais tarde se chamou de retomada. Focado no eixo difusão-produção-ensino-memória, o festival contribuiu com o ressurgimento de importantes nomes do cinema do país e da região escolhendo-os como seus homenageados. Lázaro Papazian foi o primeiro, depois se sucederam Vicente Leão, Arne Sucksdorff, o pesquisador Saulo Pereira de Melo, Jose Mojica Marins, Andrea Tonacci, entre outros. Esta rememoração através das homenagens, ainda que pequena e parcial, preenchia uma importante lacuna, uma vez que a pesquisa Memória e Mito do Cinema em Mato Grosso permanecia inédita. Por outro lado, o Festival de Cinema estimularia também a retomada da produção de filmes na região, período este que conceituo como “Lufada” do cinema mato-grossense – uma alusão ao momento em que os peixes migram naturalmente em direção à luz.  Da mesma forma, naturalmente, a produção acontece por única e exclusiva vontade e esforço de seus produtores e realizadores, sem uma política pública para o setor.

Deste período surgem novos nomes no cinema no estado: Amauri Tangará, Luiz Borges, Marcio Moreira, Bruno Binni, Valéria Del Cueto, Gloria Albuês, que através de diversificados filmes exibidos em importantes festivais do país e do mundo levaram notícias alvissareiras da produção de cinema em Mato Grosso.

O Festival também estimulou a vinda de produções brasileiras de longa metragem ao estado, que se constituíram como verdadeiras universidades para estudantes e iniciantes produtores locais. Hermano Penna ( Mario – 1997), Joel Pizzini (Enigma de um Dia – 1996; 500 Almas – 2004), Sergio Bianchi (Cronicamente Inviável - 1999), Toni Venturi (Latitude Zero – 2001),  Paulo Thiago (O Vestido – 2004) e recentemente Geraldo da Rocha Moraes (O Homem Mau Dorme Bem – 2007) revelaram ao país as diversificadas e originais locações de Mato Grosso. O sucesso deste período promovido pelo Festival em grande parte foi motivado pela Lei de Incentivo à Cultura do Estado de Mato Grosso, na qual a AMAV se destacou na luta pela sua criação. Em dez anos de existência, a Lei se tornaria referência e exemplo ao país com diversas publicações em revistas nacionais.

O Festival sempre foi um espaço que acolheu e articulou de forma democrática a política dos produtores locais, dos produtores brasileiros, e no que diz respeito ao nosso assunto, a dos pesquisadores do cinema brasileiro. Do Festival nasceu a primeira organização cível de produtores de Mato Grosso – a AMAV, o projeto do Polo Audiovisual Arne Sucksdorff, o decreto de produto de exceção cultural do cinema brasileiro, entre tantas outras iniciativas.

Não me deterei mais na questão do referido festival, assim como no Cineclube Coxiponés, e ainda no projeto do polo de cinema por considerar que merecem estudos específicos. Sua menção, ainda que superficial, tornou-se necessária por se tratar de campos interligados e indissociáveis sobre a pesquisa do cinema no Estado. Território este que volta a se animar com a publicação do livro Cuyabá na Lente do Foto Chau – Um Resgate Cinematográfico, de Marcio Moreira, edição do autor, no ano de 2000. O livro trata do acervo de Lázaro Papazian, com a descrição do conteúdo dos seus filmes realizada quando a nosso convite o autor estagiou no Cine Clube Coxiponés.

O cinema é uma arte que em Mato Grosso ainda carece de uma melhor compreensão, tanto no que diz respeito à sua complexa cadeia produtiva, como também no que diz respeito à obra cinematográfica e sua linguagem, e principalmente à pesquisa do seu conhecimento.  No que diz respeito a sua relação com esta sociedade, acredito que contribuem de forma considerável para o seu atraso a inexistência de políticas públicas e, principalmente, de instituições que as internalizem em suas estruturas. Para que as contribuições dos indivíduos sejam incorporadas e transpassem o território da pessoa, para que rompam definitivamente as formas provincianas da qual se originaram e galguem uma etapa verdadeiramente moderna.

Mesmo diante da ausência de políticas, programas ou mesmo linhas de pesquisas de conhecimento para o cinema em Mato Grosso, um tipo de pesquisa floresceu de forma quase que espontânea na UFMT.  Foram os trabalhos de conclusão de curso de graduação, os chamados TCC, dos estudantes da Comunicação e de outras áreas. Já sabia de suas existências quando fora convidado por Andréia Viggo, aluna do curso de Comunicação Social, e que trabalhava na produção do festival, para orientar sua conclusão de curso, em 2002, que resultou na pesquisa A Indústria do Audiovisual – Um Estudo Comparado, uma Proposta para Mato Grosso. Este trabalho deu uma importante contribuição para a formatação posterior do mencionado projeto do Polo Audiovisual Arne Sucksdorff.

Para a presente publicação realizei uma rápida e superficial prospecção nas bibliotecas setoriais e na Biblioteca Central da UFMT para tomar um primeiro contato com esta produção.

O primeiro TCC de que se tem registro na UFMT aparece em 1997. Com o tema Invasão dos Quadrinhos no Cinema, Antonio de Oliveira Costa Neto e Joubert Lobato Evangelista, que promovem um inventário histórico do surgimento da relação entre a arte sequencial e os filmes, ainda realizam uma abordagem semiótica sobre o surgimento dos heróis e seus mitos. Os autores fizeram um cuidadoso levantamento sobre os personagens das histórias em quadrinhos, o seu surgimento e proliferação a partir da grande depressão americana de 1929.

Dois anos mais tarde, a dupla de alunos Ana Paula Santana e Jussara Ormond produzem uma inovadora e original pesquisa sobre a produção contemporânea de filmes em Cuiabá. Com o título de A Produção Cinematográfica em Cuiabá – Década de 90, documentam a produção do período e através de entrevistas com o público avançam sobre a significação da recepção das obras produzidas.

Em 2002, Juliana Cristina Curvo realiza uma pesquisa aplicada tendo como referência um ícone do cinema brasileiro, A Estética da Fome e o Uso da Estética – O cinema de Glauber Rocha na TV. Neste mesmo ano, Cintia Helena Tunes, em Luz… Câmera..Há som: a Música no Cinema, apresenta um lado ainda não explorado pelas pesquisas anteriores: a técnica cinematográfica. A autora escolheu o rico universo do som no cinema e promoveu um razoável levantamento bibliográfico sobre seu desenvolvimento tecnológico e sua aplicabilidade.

Parceiro nas primeiras edições do Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá, quando coordenava as mostras de vídeo, Menotti Reiners Griggi, para conclusão do curso de Letras, apresenta um estudo sobre a semiótica no cinema intitulado O Olhar que transpassa ou a Dualidade do Olhar.

Com temas diversos e muitas vezes desconexos, o que demonstra claramente a inexistência de uma linha de pesquisa para o cinema na UFMT, de forma espontânea os TCC vão se proliferando, o que reforça a sua relação direta com o campo de interesse formado a partir do surgimento do  Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá. Ainda em 2002, Aretusa Keiko Rondon Tanaka, em Vídeo Integração: uma Alternativa para a Importância do TCE Estudantil, se volta para o formato do vídeo institucional aplicado a aspectos da realidade de seu trabalho no Tribunal de Contas do Estado. No ano seguinte, Diego Baraldi de Lima, que estagiava no Cineclube Coxiponés e participava da produção do Festival de Cinema, estimulado por este novo ambiente, apresenta A Lei Estadual de Incentivo à Cultura e a Produção Audiovisual em Mato Grosso,  em que promove um levantamento da produção estimulada pela criação do mecanismo de fomento do Estado; onde também investiga se o público local tem tido acesso aos curtas-metragens produzidos, bem como a maneira como este público gostaria de ter acesso a estes produtos. Mesclando importantes aspectos da cadeia produtiva do audiovisual, o fomento, focando em questões anteriormente levantadas por Ana Paula Santana e Andréia Viggo, Beraldi amplia importantes aspectos das pesquisas anteriores.

Em 2004 aparece mais uma pesquisa aplicada sobre o cinema em Mato Grosso, desta vez voltada para a educação. A dupla Aliana França Camargo e Cristiano de Souza, em Cinema-Agora: Educação e Cidadania Através do Audiovisual, estuda e documenta a formação do acervo de imagens da SEDUC, Secretaria de Educação do Estado de Mato Grosso. Formado de 546 programas, em sua maioria produções do Vídeo-Escola da Fundação Roberto Marinho, os autores problematizam aspectos da utilização do acervo e seus conteúdos no desenvolvimento da educação.

Em 2005, Daniella Martins Cavalcante e Isabelle Rodrigues realizam o trabalho intitulado Aproximação da Publicidade com o Cinema – Análise das Linguagens e Estratégias Comunicativas. No mesmo ano, Haroldo Arruda Jr. apresenta Shrek 2 e a Semiótica: Percurso Analítico do Filme Shrek 2 à Luz da Semiótica do Filósofo Americano Charles Sanders Peirce. A pesquisa apresenta o percurso analítico das linguagens do filme e um estudo das interpretações geradas pelos signos inerentes – sua repercussão na recepção dos conteúdos imagéticos. Com o tema História e Memória do Cinema, Anderson Alves Jorge promove uma rememoração do cinema e das primeiras salas em Cuiabá, uma compilação de tudo o que fora publicado sobre o assunto.

Em meio aos trabalhos de conclusão de curso aparece uma primeira dissertação de mestrado, na qual o cinema é tratado com maior profundidade, de acordo com o tema proposto. Luiz Diogo Vasconcelos Jr., em Cultura, Cinema e Violência na Contemporaneidade, promove uma interessante investigação sobre as relações culturais entre a violência simbólica e de conteúdo, priorizando o cinema e a televisãoe tendo os filmes Olga, de Jaime Monjardim, e O Invasor, de Beto Brant, como referência de sua análise. No trabalho, o autor elucida e problematiza de forma muito clara um vínculo muito antigo existente entre o cinema brasileiro e a televisão.

Ainda neste ano, 2005, o videoclipe foi o tema da pesquisa de conclusão de curso de Carlos Alexandre Salvatore, A Evolução do Videoclipe, os Valores Agregados e sua Disposição como Material de Divulgação. O autor da pesquisa analisa o videoclipe A Lua, da banda mato-grossense Kaiamaré.

No ano seguinte, a relação entre cinema e educação em Mato Grosso volta a ser tema de um trabalho de conclusão do curso de Comunicação. Desta vez, Nariel Iatskiiu Lozano, em O Cinema como Ferramenta para Educação, apresenta o projeto de difusão audiovisual Cinema Circulante, realizado pela AMAV, tido como um processo educacional na medida em que atua para a construção do conhecimento através da linguagem cinematográfica. Realizado a partir de uma experiência desenvolvida pelo Festival de Cinema com os assentamentos da empresa Furnas, na Usina Hidrelétrica do Manso, o projeto foi absorvido pela AMAV e o Cine Clube Coxiponés, que deram continuidade por anos subsequentes.

O documentário produzido na região foi o objeto de análise do TCC de Ana Claudia Simas e Wanessa Prado Souza em Documentário em Cuiabá: Aspectos Históricos e da Produção Atual. Diego Baraldi de Lima retorna ao campo de investigação científica, desta vez no território da semiótica, com a pesquisa Terra para Rose: Cinema, Representação e Testemunho. Baraldi se propõe a uma análise do discurso cinematográfico presente no documentário Terra Para Rose, de Tetê Moraes, tendo por referência a semiótica peirceana e os escritos de Jacques Aumont acerca da sintaxe cinematográfica. Ainda neste ano, 2006, o mesmo autor apresenta a sua dissertação de mestrado O Cinema Mato-grossense dos Anos 90: Entre o Local e o Global, analisando de forma detalhada a iconografia presente no curta-metragem mato-grossense A Cilada com Cinco Morenosde minha direção, e problematizando questões referentes à construção de uma identidade cultural  na produção dos filmes mato-grossenses.

Com uma produtividade acadêmica de alto nível, atualmente como programador de filmes, Diego Baraldi se destaca na reflexão sobre o cinema em Mato Grosso, o que me motivou a convidá-lo em  2006 para desenvolvermos um projeto de Pós-Graduação em Audiovisual no Departamento de Comunicação da UFMT, onde ele trabalhava como professor visitante. A iniciativa resultou num projeto inovador que infelizmente até o momento não foi implementado.

Neste mesmo período, outra Pós-Graduação foi realizada em Mato Grosso. Meses mais tarde a AMAV-ABD, em parceria com a UNIC, Universidade de Cuiabá, com coordenação pedagógica do cineasta e professor Joelzito Araújo, mobilizou mais de 50 alunos e grandes nomes da produção do cinema brasileiro para a região. Porém sua realização não teve resultados positivos para a pesquisa do cinema na região, que sequer fez parte da grade curricular. Os alunos foram dispensados de apresentar monografias, ou seja, produzir conhecimento, ao final do curso, desde que apresentassem projeto de desenvolvimento de curtas-metragens para serem colocados nos editais de fomento do Fundo Estadual de Cultura.

Ainda que a pesquisa de cinema e a constituição de acervos em Mato Grosso se deram de forma difícil e incipiente, no estado vizinho, o Mato Grosso do Sul, encontraram melhor sorte. O acervo de quase 70 filmes do aquidanauense Décio Correia de Oliveira encontra-se em fase de restauração por uma iniciativa cidadã, em parceria com a Petrobras; o MIS-MS começa a organizar o acervo de mais de 70 filmes de David Cardoso, e o acervo de Reynaldo Paes de Barros, ainda que necessite de restauração, não foi de todo perdido.

Este contraste entre os dois estados reforça o pouco interesse dos mato-grossenses com o seu cinema, já evidenciado na pesquisa publicada. Por outro lado, a partir da prospecção na UFMT dos trabalhos de conclusão de curso e monografias, em sua maioria orientados pelos professores Moacir de Santana Barros, Pedro Pinto e Lucia Helena Vendrusculo Possari, do Departamento de Comunicação, e as professoras Ludmila Brandão e Marilia Beatriz, do Instituto de Linguagens, percebe-se o surgimento, ainda que espontâneo, de diversos e importantes trabalhos sobre o cinema.

Para finalizar, gostaria de registrar que o ano de 2008 foi de grande significância para o cinema em Mato Grosso, em especial o cinema realizado no estado, no que diz respeito à sua história e à construção da memória social na região. Primeiramente pela iniciativa do Instituto Cultural América – INCA de conclamar a sociedade e suas instituições afins para celebrarem o centenário do cinema na região. Esta iniciativa abrigou os seguintes lançamentos literários: a coletânea Memória e Mito do Cinema em Mato Grosso, o livro Salas dos Sonhos, História do Cinema de Campo Grande, das jornalistas sul-mato-grossenses  Marinete Pinheiro e Neide Fischer; e o livro Memória da Memória – Uma História do Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro – CPCB, organizado por Carlos Alberto Mattos, Carlos Augusto Brandão, José Tavares Barros e Myrna Silveira Brandão.

No campo da articulação de uma política de pesquisa integrada regionalmente foi realizado o importante Encontro de Pesquisadores de Cinema da Região Centro-Oeste, coordenado pelo CPCB durante o 15º Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá.  No Museu de Arte e Cultura Popular da UFMT foi realizada a importante exposição de fotografias 100 Anos do Cinema em Mato Grosso, que além de Cuiabá percorreu as cidades do Rio de Janeiro, a capital do Mato Grosso do Sul, Campo Grande, e ora segue para Goiânia e Brasília. O Arquivo Público do Estado promoveu uma série de conferências sobre o tema, e encerrando as comemorações a Academia Mato-Grossense de Letras promoveu uma semana de cultura mato-grossense, onde o cinema se fez presente. Comemorações estas que se estendem até o presente ano (2009) com a mostra 100 Anos de Cinema em Mato Grosso, promovida pela Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura e Prefeitura de Cuiabá no morro da Caixa D’Água Velha.

Em toda a sua história centenária, o cinema no estado jamais tinha registrado um momento de tão ricas e vivazes informações. Tamanha agitação nos permitiria afirmar que o cinema em Mato Grosso virara uma página de sua história. Das profundezas do descarte, do obscurantismo, avança em direção a um novo patamar: o de seu reconhecimento pleno, e um novo campo gerador de conhecimento no estado. Porém, não podemos ainda afirmar nesta magnitude não fossem os descaminhos vividos para celebração do centenário, onde se constatou a absoluta omissão do governo do estado. Comemorado à revelia, o centenário, ainda assim, conseguiu superar esta mácula e – por mais que hoje seja considerada águas passadas – contribuiu para que sua história fosse divulgada e rememorada. Passo este importante para que as autoridades e intelectuais, produtores e estudantes se sensibilizem e tratem o cinema com maior respeito e dignidade, promovendo sua definitiva inserção no seio do desenvolvimento da cultura mato-grossense e brasileira.

A UFMT, mais uma vez, apresenta sinais promissores nesta direção. Com a recente criação do Mestrado de Estudos Contemporâneos no Instituto de Linguagem da UFMT, a transformação em curso das habilitações de Rádio e TV em Audiovisual no Curso de Comunicação Social, e as atuais reformas em curso no Cineclube Coxiponés, promovidas pela nova administração superior da UFMT, prof. Dra. Maria Lucia Cavalle Neder, pode-se abrir um novo caminho para o desenvolvimento do cinema na região, com mais pesquisas e conhecimento. Enquanto isso, a inexistência de um arquivo de filmes em Mato Grosso impede que se possa retornar ao estado o que sobrou dos cerca de 80 filmes realizados na região no período de 1908 a 1970, e ainda os 178 registros de Lázaro Papazian. Tais fatos revelam a urgência da constituição de um arquivo único para facilitar o acesso e pesquisas, e principalmente a preservação da memória dos mato-grossenses contida nos filmes.

Luiz Carlos de Oliveira Borges é cuiabano, produtor e diretor, mestre em Cinema pela Escola de Comunicação e Artes, servidor da Universidade Federal de Mato Grosso. Há 16 anos produz o Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá. É autor da coletânea Memória e Mito do Cinema em Mato Grosso.
 

 

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