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Cuiabá, Dezembro de 2017

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Almanaque Cuiabá

Massacre da Baia do Garcez: assassinato e as 'velhas raposas' políticas de Mato Grosso

O massacre da Baía do Garcez foi um episódio que ocorreu no início do século XX, envolvendo o governador Totó Paes, que se afastou gradativamente da esfera de influência dos Murtinho, estabelecendo contato direto com o então presidente Rodrigues

Massacre da Baia do Garcez: assassinato e as

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A “revolução” de 1906 foi um dos mais controversos e marcantes das práticas políticas em Mato Grosso, culminando com a deposição e consequente assassinato do então governador Antônio Paes de Barros, o Totó Paes.

Totó Paes, como era conhecido, havia há pouco entrado para o universo da política local. Nascido em Cuiabá, em 1851, ele utilizou recursos da herança paterna para adquirir a fazenda Itaici, onde funcionava um antigo engenho. Em 1896, com aporte de capitais da instituição financeira alemã, dirigida na Argentina por Otto Franke, construiu uma moderna usina de açúcar e aguardente, que entrou em atividade logo no ano seguinte. A projeção econômica aproximou Totó Paes da atividade política e do grupo liderado pelos irmãos Joaquim e Manuel Murtinho.

Força política
Depois de uma breve passagem pela Assembleia estadual, Totó Paes se destacou como força política por ter liderado, na “Revolução” de 1899, porém, as tropas que afastaram temporariamente do predomínio da política local o coronel Generoso Ponce, liderança que disputava a hegemonia do mando em Mato Grosso, contra os irmãos Murtinho.

Joaquim Murtinho X Manuel da Costa Marques
Na eleição para o governo do estado, realizada em fevereiro de 1903, concorreram duas chapas, uma apoiada por Joaquim Murtinho, à época senador, e encabeçada por Antonio Paes de Barros, e a outra liderada por Manuel da Costa Marques, que era apoiado por Generoso Ponce que, com o fim do seu mandato senatorial, em 1902, passou a se dedicar a seus empreendimentos comerciais, embora não tenha se afastado das lides políticas. A influência dos Murtinho foi decisiva para a vitória de Totó Paes. 

Com a saída de Generoso Ponce do Senado, [a política em Mato Grosso] caminhou por algum tempo tranquila. Totó Paes e os irmãos Murtinho acreditavam que Ponce estivesse politicamente “morto”, como aparece em mais de uma correspondência. Ele se retirou para Corumbá e voltou à atividade comercial com a firma Ponce, Azevedo & Companhia. (MENEZES, 2007: 109)

Mandato de Totó Paes excluiu os Murtinho do cenário político
Durante seu mandato, Totó Paes se afastou gradativamente da esfera de influência dos Murtinho, estabelecendo contato direto com o então presidente Rodrigues Alves (1902-1906), de quem, respeitando a recém-implementada política dos governadores, recebeu amplo apoio político. Essa atitude do governador feriu de morte os brios de Joaquim Murtinho que, à época, pertencia ao bloco de oposição, o qual contava com nomes de peso do cenário nacional como Rui Barbosa e Pinheiro Machado.

Tratado de Petrópolis
Entre os atos que denotam a tentativa de autonomia de Antonio Paes de Barros em relação aos Murtinho, a historiografia local enumera os seguintes fatos: o primeiro deles é que o governador Antonio Paes de Barros teria apoiado o presidente Rodrigues Alves na assinatura do Tratado de Petrópolis, firmado em 17 de novembro de 1903. Por ele, dentre as condições pactuadas, Mato Grosso cedia uma pequena fração de terras na região da baía Negra, situada entre os municípios de Corumbá e Cáceres para a Bolívia. Em contrapartida, o acordo estabelecia, mediante pagamento, a incorporação do Acre ao território brasileiro.

Reforma constitucional em causa própria
A segunda acusação de traição política que pesou contra Antonio Paes de Barros está relacionada com sua tentativa de reformular a constituição estadual para aprovar uma proposta de reeleição para o governo do estado. Os rumores das intenções do governador e o receio do fortalecimento político de Totó Paes estimularam a classe política a promover a aproximação de inimigos e até mesmo de aliados contra as possíveis pretensões do então governador.

Totó Paes X Murtinho em apoio a Rodrigues Alves X Afonso Pena à Presidência da República
Finalmente, há o fato de que nas discussões para a sucessão presidencial, iniciadas em 1905, Totó Paes teria se mantido ao lado de Rodrigues Alves, que apoiava o nome de Bernardino de Campos, então governador de São Paulo, para sucessão presidencial, ao passo que Joaquim Murtinho, tutor político de Paes de Barros, apoiava o movimento suprapartidário chamado “Coligação”, que defendia o nome do mineiro Afonso Pena para a presidência da República.

Motivos principais da decadência de Totó Paes
Toda a produção bibliográfica mato-grossense é unânime em apontar estes como sendo os motivos principais que provocaram o afastamento político de Totó Paes em relação aos Murtinho e a consequente reaproximação destes de Generoso Ponce.

A imprensa: "A Colligação X "O Estado"
O ano de 1905 marca não somente a nova aliança entre as velhas lideranças, como o aparecimento, em âmbito local, do periódico A Colligação, destinado ao embate político e acusações de toda ordem contra Totó Paes. A partir daquele momento, acirraram-se as disputavam que vinham sendo entabuladas. Ambos os lados usaram a violência da palavra escrita para o ataque mútuo. De um lado, a oposição se utilizava de A Colligação para atacar e mobilizar a “opinião pública” mato-grossense para sua causa; de outro lado, o governo Totó Paes se defendia e contra-atacava por meio do periódico “O Estado”.

Enfrentamento bélico
À medida em que o clima de tensão política ia se avolumando, as lideranças de ambos os lados preparavam homens e as armas para um possível enfrentamento bélico, ou seja, o uso explícito da violência. Pensando estar respaldado pelo apoio federal, o governador Antônio Paes de Barros foi até as últimas consequências em sua tentativa de se impor como liderança política em Mato Grosso. No início de junho de 1906, as tropas mobilizadas pela aliança Murtinho-Ponce começaram a se aproximar da capital Cuiabá.

Estratégia marítima de Totó Paes não deu certo
Além de contar com efetivo próprio e com a força pública local, Totó Paes havia solicitado apoio federal e esperava a chegada do efetivo trazido pelo general Dantas Barreto para por fim à tentativa de seus inimigos. Ocorre, porém, que a ligação mais rápida para chegar a Cuiabá se dava por meio de transporte fluvial, a partir de Corumbá. Sabendo disso, astutamente, Generoso Ponce desmobilizou todas as grandes embarcações que poderiam fazer o transporte das tropas. Essa estratégia assegurou o atraso de chegada do reforço federal em apoio a Totó Paes e a consequente vitória de seus inimigos.

A morte de Totó Paes
O ato final do conflito “revolucionário” se deu no raiar do dia de 6 de julho de 1906, quando Totó Paes foi encontrado, pelo coronel Joaquim Sulpício, escondido em um matagal. Lá foi assassinado. Seu corpo foi deixado à beira de um córrego, sendo encontrado apenas às 11 horas do dia 6. (...)

No mesmo dia de sua morte, foi enviado ao local pelo presidente em exercício, coronel Pedro Leite Osório, o chefe de polícia interino, Alfredo Otávio de Mavigner, acompanhado de dois peritos e três testemunhas para o reconhecimento cadavérico e para o exame de corpo de delito.

O auto do exame foi redigido por Flaviano Gomes de Barros. Testemunharam os trabalhos os coronéis Severo José da Costa e Silva, Virgílio Alves Corrêa e Manuel Escolástico Virgínio (com exceção do primeiro, todos opositores de Totó Paes). Os peritos Dr. Estevão Alves Corrêa e o farmacêutico Luiz da Costa Ribeiro Filho, que efetuaram o exame de corpo de delito, apontaram como causa mortis “dois ferimentos por bala, sendo um próximo ao mamelão direito e outro abaixo do conduto auditivo esquerdo.” (PORTELA, 2009m p. 87/88 – destaques do autor)

A narrativa dos fatos pelos jornais
Era o fim de mais uma das “revoluções” mato-grossenses. Nas edições de 22 e 29 de julho de 1906, o periódico A Colligação foi dedicado quase exclusivamente a narrar os detalhes do confronto que pôs fim à atuação política de Totó Paes. O jornal ainda reforçou os adjetivos pelos quais Antonio Paes de Barros ficaria conhecido, entre os quais figuram com maior destaque as palavras: tirano, rústico e assassino. Naquele mesmo ano ocorreu o leilão dos bens de Totó Paes, dados em garantia no financiamento da construção da Usina Itaicy. Supostas ameaças também obrigaram sua família a se retirar, na miséria, para o Rio de Janeiro.

 

Fonte: pesquisa orientada, Elizabeth Madureira Siqueira
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