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Cuiabá, Novembro de 2019

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Almanaque Cuiabá

No saco poético de Zé Bolo Flô tinha poesia

Um poeta-andarilho. No fim da vida, taxado como louco e institucionalizado como tal, morto como um indigente, sem nome, missa ou flores.

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Nascido como José Inácio da Silva, eternizado como o folclórico Zé Bolo Flô. Agora é nome de parque na cidade que tanto amou e poetizou, Cuiabá dos seus encantos e desencantos, a qual retratou em versos e letras de canções que nunca cantou.

Desde criança, ao cantarolar “eu vim, eu vim, eu vim de lá para cá, eu sou, eu sou, eu sou de Cuiabá/ terra de Dom Aquino/ me lembra os tempos de menino/ jogava peteca/ soltava ioiô/ brincava com o Zé Bolo Flô”, sequer imaginava que se tratava de uma música da autoria do poeta-mendigo, meio louco, meio gênio, que carregava consigo um saco de estopa com todas as letras que povoavam a sua imaginação febril. 

Foi durante as décadas de 1960 e 1970, que Zé Bolo Flô ao perambular por Cuiabá, se consolidou no imaginário popular da cidade. O apelido foi dado pelos cuiabanos, que faziam uso deste costume para caracterizar o dia a dia de seus personagens. De origem humilde, para se manter enquanto vivia de favor na casa de uma família tradicional, José Inácio da Silva vendia bolos e flores no centro de Cuiabá. Por isso, ficou conhecido como Zé Bolo Flô. 

Era sujeito atrevido na sua humildade sensível. Adentrava as principais missas da cidade, com suas roupas maltrapilhas, um terno desgastado e uma camisa desbotada, e assim, com o saco nas costas, parava em frente ao altar, rezava e ia embora. Sempre carregava um santo para proteção. Religioso, estava em todas as festas de santo e acompanhava as esmolas do Senhor Divino. Ainda vivo era um símbolo, sua presença era festejada nestas festas públicas, e o poeta mendigo transitava entre as classes médias e pobres, mas era visto com maus olhos pela alta elite cuiabana, que torciam o nariz quando invadia a igreja com sua presença humilde.

O poeta popular foi tema até de dissertação de mestrado da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) de Sílvia Ramos Bezerra sobre estudos literários e culturais, que contribuiu para entender melhor o que foi e como chegou a esta representação de ícone cuiabano. Com depoimentos colhidos dos cuiabanos antigos, ali contam que Zé Bolo Flô era semi-analfabeto.

Seus poemas eram criados em sua mente fervilhante, e ganhavam o papel com a ajuda dos estudantes que passavam pela Praça Alencastro, um dos pontos que o andarilho estava sempre presente. Cuiabá passava pela transformação de cidade pequena para cidade grande, borbulhante, um caldeirão de pessoas, transeuntes, dos quais Zé Bolo Flô tirava inspiração para suas poesias e canções. A musicalidade corria em suas veias poéticas. Compunha, cantava ou recitava, e quem passava pela praça o ajudava a colocar no papel, que logo ia para alguma gráfica, virava folheto e se espalhava por Cuiabá. 

A inspiração pela cidade transpirava de boca em boca, de folheto em folheto, de causo em causo. Zé Andarilho, Zé Meio Louco, Zé Poeta, Zé do Saco. O pobre, humilde, maltrapilho, que participava dos carnavais da cidade, empolgado e alegre como ninguém, ia à frente dos blocos carnavalescos puxando os foliões. Também era lembrado nos programas de auditório, sempre ao lado dos cantores que entoavam as canções de sua autoria. Seu sonho era cantar, que nem passarinho. Não conseguia, e por isso, só se deu a criar.

E sua figura estava sempre a caminhar pela cidade, com seus poemas a marcar o compasso, e as canções a marcar o tempo. Rodopiava como em um giro e trilhava do Porto ao Centro de Cuiabá. Zé Bolo Flô estava sempre lá. Até o dia em que não esteve mais. O trancafiaram como louco no Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho, e lá morreu por volta de 1972 e 1974. O poeta-mendigo, o poeta-andarilho ganhou as páginas dos jornais. Morreu como indigente, mas foi lembrado saudosamente pela imprensa. E ao sair da vida entrou para a história. O mito, a lenda, o folclore que povoam Zé Bolo Flô. 

Em sua mendicância, recebeu ajuda e simpatia dos cuiabanos e em troca, dava um poema, uma canção ou um verso como agradecimento. Coloria a vida dos que passavam por si, que as vezes, sem o olhar diretamente nos olhos ou sem entender sua alma rebelde e poética. Mas, o imagino a caminhar por Cuiabá, vagarosamente, com o terno amassado e a camisa velha. Nas costas, o saco de estopa, o símbolo da sua loucura, da sua caminhada incessante em busca de algo que nunca saberemos.

Dentro do saco de estopa, suas ideias, seus olhares, seus pensamentos, canções, poemas, desilusões, a solidão que gritava solene em seus ouvidos e que o mostrava o seu lugar no mundo: desamparado pelos homens, mas regido pela arte pulsante que o dominava. E sem se importar, do mesmo jeito que viveu, morreu. O saco de estopa pode ter parado no lixo, e seus poemas perdidos para sempre, mas a sua imagem continua viva, e é na memória coletiva e afetiva da cidade, que Zé Bolo Flô se fez parque, se fez árvore, caminho e flor. 

 

Fonte: por Marianna Marimon, Olharconceito 
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