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Cuiabá, Janeiro de 2019

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Almanaque Cuiabá

A crise política e a História brasileira

O período da Revolução de 1964, nos 21 anos em que ela se manteve governando o país, trouxe modificações sérias no comportamento social do país.

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Alguns muitos positivos e outros muito negativos. A soma e a subtração entre esses valores dá um saldo que termina se mostrando agora no governo Collor.

Por exemplo, nos três últimos governos revolucionários, a partir de general Garrastazu Médici, o país entrou numa corrida de desenvolvimento econômico. Primeira vantagem: positiva. A desvantagem: isso se de' u com dinheiro emprestado do exterior sob condições leoninas.  No aspecto social houve outros fatos.  O desenvolvimento econômico reforçou a fixação de uma classe média na sociedade brasileira, que já vinha abrindo espaço desde a segunda guerra mundial.  Essa classe média viria mudar o perfil do país.  Tanto político, quanto social. Ela agregou algumas vantagens do sistema econômico vigente: comprou casa própria, comprou automóvel, invadiu as universidades, invadiu o serviço público e tomou conta de todos os escalões.

Mais importante: começou a ter voz política. É bom que se registre isso, porque a tradição política do país era do domínio oligárquico. A classe média então existente aplaudia o sistema e não tinha expressão capaz de influir nas mudanças, exceto por movimentos de rua.  Mas não tinha voz.  Só presença.

Nos governos militares essa classe média nasceu no meio urbano num regime de fartura. Pela primeira vez na História do país, ela conseguiu chegar ao Poder de fato. Conquistou vagas no Congresso e começou a falar um idioma diferente da língua oficial das oligarquias.

Mas o crescimento econômico do país e o fechamento político do governo traziam dois outros fatos sérios: 1º - a corrupção; 2º - o domínio das empreiteiras sob o destino de recursos públicos destinados a obras públicas. Instalava-se o lobby no país. Os governos militares, extremamente fechados e dominados por técnicos-burocratas mantinham o poder público numa cápsula impermeável a políticos e povo.  Surgiram meios especializados em furarem esse bloqueio e arrancarem dinheiro público.  Isso implicou necessariamente na corrupção dos pontos de estrangulamento da técnico-burocracia. Nascia a corrupção institucionalizada. Os Políticos entraram nesse barco quando perceberam que era possível navegar dentro do governo apesar de fechado, também levantarem dinheiro.

As empreiteiras de obras públicas e as grandes corporações financeiras abriram um novo flanco na economia e se fartaram de dinheiro. Junto, levaram políticos, técnicos, burocratas, juízes e ministros.  Estabelecia-se a corrupção generalizada. E a impunidade se tornou automática porque mexer numa ponta derrubaria o resto do cartel.

Em meio a isso, o empobrecimento das classes trabalhadoras e o da classe média.  Mimada por sua capacidade de compra e facilidades jamais sonhadas, classe média tornou-se referencial político no país.  Principalmente depois que começou a empobrecer na medida em que o sistema todo também empobrecia.  Acabara-se o dólar farto no mercado externo. E chegara a hora de pagar a fatura. Óbvio que não havia dinheiro. O desvio fora monstruoso e os investimentos feitos levariam anos para amadurecerem e produzirem resultados financeiros.

Estabelecia-se a crise, por volta de 1982/3. Sobrou um Brasil amargo depois da euforia do crescimento. Este Brasil entrou no governo Collor buscando solução milagrosa para essas contradições expostas. Fruto, ele próprio da mesma cultura, não teria condições de retomar o crescimento econômico desejado e satisfazer agora na seguinte escala: empreiteiras, grandes fornecedores de bens aos serviços públicos, bancos e a nova oligarquia econômica do país que viu seus lucros caírem. A classe média que se tornara agente de transformação dentro da sociedade, produzindo e consumindo. A base trabalhadora mal remunerada e desempregada correndo para a economia informal para sobreviver.

Esse Brasil, representado no Congresso Nacional por representantes desses três categorias concitadas, acabou se transformando na Torre de Babel que, casualmente foi chamada a partir de março de 1991 de Brasil Novo, tendo como dirigente um filho do sistema, Fernando Collor. Não poderia dar em outra coisa diferente do que deu. Mudar tudo isso levará tempo igual ou maior do que se gastou para fazer e, quem sabe se mudará mesmo?

 

postado por Onofre Ribeiro, 1990
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