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Cuiabá, Novembro de 2019

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Almanaque Cuiabá

Um alquimista sem transformação

Um alquimista sem transformação

A mágoa está estampada no rosto do escritor

Confesso que fiquei chocado com a recente entrevista de Paulo Coelho. Perplexo porque pensava que um autor que vende milhões e milhões de livros para o mundo todo, traduzido em dezenas de idiomas, sublimando a crítica literária recheada de preconceitos, pudesse nos dar uma grande mensagem. O que percebi? Um homem rancoroso que vive numa prisão construída para si mesmo, anotando o nome de desafetos para que, no momento certo, possa se vingar. Mas como é possível uma pequenez dessas, considerando o retumbante sucesso pessoal e profissional? Será que, nas alturas em que transita, ainda está ligado com questiúnculas menores?
Imaginei, pelo que li de Paulo Coelho (três ou quatro livros), que fosse ele uma pessoa inclinada para a espiritualidade, onde superar os bairrismos se desse facilmente. Parece que não. O autor confessou ao entrevistador Pedro Bial que anota o nome de todos aqueles que o criticam para que, numa eventual eleição à Academia Brasileira de Letras, possa pagar na mesma moeda. De uma amargura inacreditável para um “mago”, aquele que se exercita diariamente para transcender picuinhas pessoais. A mágoa está estampada no rosto do escritor e, quando provocado, também exibe o evidente rancor.
Paulo Coelho tem todos os instrumentos para ser maior do que pareceu. Trata-se do autor mais conhecido do mundo, o segundo mais vendido na história. Ultrapassou anos-luz qualquer brasileiro que tenha feito sucesso no exterior. Vendeu muito mais doA que a maioria dos escritores contemporâneos somados. Para ter uma ideia, a tiragem de um livro no Brasil é de 1000 a 3000 exemplares, no máximo. Sozinho, Coelho vendeu 150 milhões de livros, algo comparável com a soma de 10 anos de consumo de produção nacional de literatura. São 81 idiomas que conhecem o elã do escritor, suas histórias de mistério e descoberta, viagens internas e astrais, precipícios e recomeços. Paulo Coelho é muito mais do que um fenômeno, um modismo passageiro. A consistência do público ao longo desses 20 títulos faz com que os críticos roam as unhas a justificar de todas as formas negativas o sucesso alheio. Pois bem. O que esperar de alguém que tenha conseguido uma façanha como essa? Eu tinha grandes expectativas para ouvi-lo.
O que vi foi uma sucessão de “eus” do começo ao fim. O maior representante da literatura brasileira não deu conta de falar sobre literatura nacional ou internacional, sobre a imagem brasileira, sobre a interação com o público, sobre as nuances atraentes da nossa escrita. Não conseguiu citar um colega, um escritor, um trabalho para a divulgação de brasileiros no exterior, um programa de intercâmbio, nada além dele mesmo. Fez pouco caso com a Academia Brasileira de Letras, importante apenas “para dar satisfação ao público”, uma conquista eminentemente política e para o pai que não se dava muito bem com ele. Não se dignou a voltar uma única vez, a estar com os colegas, a dar uma palestra, a ouvir outro escritor, a participar de uma posse ou qualquer cerimônia da instituição para a qual lutou para entrar.
O esperado “Alquimista” não conseguiu sair de si mesmo, aprender humildade e, somente então, retornar para descobrir a tal pedra filosofal. O Paulo Coelho que assisti é, no máximo, um aprendiz de alquimista, alguém ainda perdido na própria vaidade. O que vi me chocou profundamente, considerando a expectativa que colocava num escritor que teria se tornado maior e melhor. Está provado que as pessoas levam consigo as próprias cicatrizes e fazem delas recalques eternos, procurando obsessivamente o aplauso na própria rua, mesmo que tenham tomado o mundo inteiro de assalto. É pena. Aliás, quase tive pena. Mas... um segundo! Como assim pena? Pois é... não sei explicar direito.

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