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Cuiabá, Novembro de 2019

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Almanaque Cuiabá

Sujeito Indeterminado

Sujeito Indeterminado

Descansou no chão, fungando junto às lajotas de cerâmica esbranquiçada que forravam a saleta.

Valdomiro Neto entrou bufando pela porta e, de cabeça quente, deu uma topada na mesinha de centro da sala apertada onde morava. Caiu no chão, ressentido pelo dia amargo. O patrão não dava aumento, o professor não dava nota, a namorada não dava chance. Descansou no chão, fungando junto às lajotas de cerâmica esbranquiçada que forravam a saleta. Ou talvez não tenha sido exatamente isso o que aconteceu. De fato, Valdomiro Neto foi mesmo jogado ao chão, mas por força de um cachorro indisciplinado que deixou, perto da porta, uma poça de urina. O animal, ainda novo, protestava por ficar sozinho sem o dono e, portanto, bagunçava o coreto de quando em vez. Daí que Valdomiro abriu a porta e não fixou o pé como deveria. Flexionou a perna, buscando o ângulo de equilíbrio e, nem assim, manteve-se. Desabou no centro da sala onde não havia a tal mesinha de centro. O nariz ralou-se, isso sim, contra um tapete grosseiro de juta que compunha o ambiente com dois sofás fedidos a morrinha de cachorro. Conferindo mais atentamente, é provável que Valdomiro Neto tenha caído porque, ao tentar ligar a luz, pisou em um chocalho deixado pelo filho de dois anos, um dos muitos objetos plantados pela infância indolente. O cuidadoso pai fazia de tudo para desviar dos brinquedos tal qual minas explosivas. Pisava em ovos, coitado. Naquele caso, porém, a manobra foi malograda pela lâmpada queimada, curto-circuito ou falta de pagamento da conta de luz. Valdomiro Neto pisou com força no chocalho oval e rodou com ele dois palmos à frente até que caísse de costas sobre o tapete macio no qual brincava o filho todas as tardes. Mas não. Essa não é a verdade. Falando a sério, Valdomiro Neto não deu uma topada na mesinha, não escorregou na poça de urina, nem tampouco pisou no chocalho do filho. A rigor, ele não tinha filho, cachorro, nem mesinha de centro. Para entender o fato, devemos retornar um pouco mais no tempo. O sujeito nem Valdomiro Neto se chama. Trata-se de Cassiano Alves, solteiro, vinte e oito anos, formado em geografia, contratado por uma escola pública para dar aulas no ensino médio. Ele gostava da garotada. Por isso, não havia hora para continuar se dedicando à docência. Quando chegou em casa, subiu os três degraus da entrada da casa e enfiou a chave na fechadura. Encontrando alguma dificuldade, Cassiano Alves foi obrigado a deixar no chão a pilha de trabalhos que carregava. Vencida na marra, a fechadura cedeu. Ocorre que a papelada embolou-se no sapato do professor que se estatelou no chão. Foi assim que a queda se deu. Ou quase. Soube-se, logo depois, que Cassiano havia se demitido da escola, cansado de ser destratado pelos alunos que, na verdade, odiava. Aquilo tudo era difícil demais para ele. Não fez geografia e sim matemática, mas havia se arrependido. Ninguém gosta de matemática e de professores de matemática, tampouco. Nas mãos, ele entrou em casa apenas com o comprovante de demissão, uma única página designando local e hora para a reunião no sindicato dos professores que fazia questão de acompanhar o caso. Cassiano encontrou a porta aberta e entrou chutando o ar com raiva. Foi aí que derrapou no puído tapetinho de feltro que dava o “boas vindas” às visitas. Arrebentou a cabeça no porta-chaves pregado à parede oposta. De seguro mesmo, o médico anotou na ficha de entrada de Reinaldo Lima Filho o traumatismo craniano sofrido por ele, resultado do atropelamento nas proximidades de casa, quadro agravado por um forte inchaço interno e a aparente amnésia. Insiste ser Cassiano ou Valdomiro, quando os documentos dão conta de ser Reinaldo. Mesmo assim, o caso reclama esclarecimento, já que essa ficha médica ainda não foi assinada por longas divergências internas quanto à causa do ataque cardíaco, já que nunca houve carro, cachorro, urina, chocalho ou queda. A cabeça do paciente está em perfeita ordem, sem um arranhão. Seja como for, nais importante que tudo é saber se ele está vivo ou morto, motivo de dúvidas até o encerramento deste conto. 

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