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Cuiabá, Setembro de 2019

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Almanaque Cuiabá

Sociedades,Grêmios e Instituições Culturais

Sociedades,Grêmios e Instituições Culturais

Após instituída a sociedade, em outra reunião a 17 de janeiro foram aprovados os estatutos sociais e eleitos os administradores da mesma, tendo com Presidente João Pedro Gardés, e ainda como diretores John Price, Estevão de Mendonça e Ramon Jackowsky.

A 10 de janeiro de 1899, o pastor evangélico norte americano John W. Price realizou em sua casa em Cuiabá, reunião onde se fundou a Sociedade Internacional de Estudos Científicos.

Participaram desse evento e tornaram-se sócios fundadores de tal sociedade, o Coronel Francisco de Paula Castro, que tantas explorações fez pelo então desconhecido território mato-grossense, o tenente Pedro Antunes de Souza Ponce, Tenente Manoel Joaquim dos Santos, o Professor João Pedro Gardés, Dr. Antonio Alves Ribeiro, Gustavo Brendel, Carlos Addor, Felix Ripeau, Henrique Levy, Jorge Bodstein, Alfonse Roche, Ramon Jackwisky, Vitoriano da Silva Miranda, e a sempre presente figura do historiador Estevão de Mendonça.

Após instituída a sociedade, em outra reunião a 17 de janeiro foram aprovados os estatutos sociais e eleitos os administradores da mesma, tendo com Presidente João Pedro Gardés, e ainda como diretores John Price, Estevão de Mendonça e Ramon Jackowsky.

A Sociedade Internacional de estudos Científicos tinha por objetivos principais, as pesquisas históricas e geográficas do Brasil, a realização de no mínimo duas conferencias anuais abordando esses temas, realização de estudos acerca das potencialidades industriais do Estado e ainda... procurar com empenho dados e informações destinadas a corrigir a Carta Geográfica de Mato Grosso, como se refere a ela Estevão de Mendonça em suas datas Mato-grossenses.

A 17 de janeiro de 1899, a Sociedade, por seus representantes legais, remeteu oficio ao Coronel Antonio Cesário de Figueiredo, Presidente do estado: Tendo sido organizada nesta cidade uma Sociedade denominada SOCIEDADE INTERNACIONAL DE ESTUDOS CIENTIFICOS, cujo objetivo é a propaganda entre nos de conhecimentos relativos à ciência e à industria, e particularmente da geografia de Mato Grosso, e não possuindo ela elementos para organizar a respectiva biblioteca, os abaixo assinados, representantes da mesma sociedade, vem pedir-vos digneis conceder-lhes, por dádiva, os volumes ainda existentes na Biblioteca do Liceu, os quais acham-se quase inutilizados por não serem aproveitados.

O governo estadual negou o pleito solicitado pela Sociedade Cientifica, sendo este, provavelmente, um dos motivos de desanimo dos sócios, o que terminou por levar à extinção da mesma ainda nesse ano de 1899. 

A esse propósito, de forma irreverente, Estevão de Mendonça nos conta em seu trabalho “Dr. John W. Price”: O seu contato mais ou menos assíduo com Manoel Joaquim dos Santos, Paula Castro, João Pedro Gardés, Antonio Alves Ribeiro, Vitoriano de Miranda, Pedro Ponce e outros intelectuais de então, inspirou-lhe a fundação de uma sociedade de historia e geografia, e desse impulso nasceu a Sociedade Internacional de Estudos Científicos. Todos os sócios afirmaram propósitos de ardorosa colaboração. Pedro Gardés pôs água na fervura:

            - Ora, pois! No dia em que o Sr. Price virar as costas, a sociedade vira o galho.

            E virou, tanto o velho educador conhecia a psique da nossa gente!.

Outras Sociedades e Instituições Culturais
Antes e depois do Grêmio Visconde de Taunay e da Sociedade Internacional de Estudos Científicos, outras sociedades foram criadas, mas com finalidades diversas do estudo e da pesquisa histórica e geográfica.

Uma das primeiras instituições culturais, talvez a primeira em Cuiabá, foi a denominada Sociedade Teatral, fundada por volta de 1870, que não deixou registro histórico substancial. Estevão de Mendonça anotou que esta instituição cedeu em 1877, o prédio de sua propriedade à Sociedade Dramática Particular Amor à Arte. È o único registro de existência da mesma.

Em 23 de abril de 1874, foi fundado em Cuiabá o Gabinete de Leitura, incentivado pelo barão de Melgaço. Foram seus fundadores o Dr. Antonio Gonçalves de Carvalho, cônego José Joaquim dos Santos Ferreira, João de Souza Neves e Dr. Carlos de Souza nobre. O primeiro diretor foi o advogado Antonio de Paula Corrêa, sendo o mesmo instalado numa sala da Câmara municipal... Através de donativos da sociedade cuiabana, inclusive do próprio barão de Melgaço, formaram uma biblioteca com um avultado numero de livros. Prosperas eram as condições do Gabinete de Leitura e Excelentes os serviços que ia prestando à população, quando a politicalha veio a estragá-lo. As sucessivas mudanças de local, foram dilapidando o rico patrimônio representado por centenas de livros, do que constituiu a primeira biblioteca organizada de Cuiabá no século XIX.

Sem qualquer vínculo com a história, em 23 de maio de 1877, foi fundada em Cuiabá a Sociedade Dramática Amor à Arte, dedicando-se aos saraus literários, musica e, principalmente, ao teatro. Foi inaugurada em 11 de agosto. Eram 62 sócios, e a primeira diretoria era composta por Henrique José Vieira, Presidente, e os demais diretores, Dormevil dos Santos Malhado, Medardo Rivani, Generoso Ponce, Vital de Araújo. Foram memoráveis em Cuiabá as suas representações teatrais. Em 1894 o prédio onde estava a sua sede veio a desabar, restringindo assim, as representações teatrais. Foi extinta por volta de 1914, tendo como presidente José Martiniano de Araújo. Em 1913 perdeu, por sentença judicial a sua sede própria localizada à rua Joaquim Murtinho. A instituição cultural sobreviveu por quase 4 décadas, tendo sido realmente a que por maior tempo subsistiu divulgando em Cuiabá o teatro, a musica e a poesia. A Sociedade Amor à Arte foi uma das mais duradouras das que tem existido em Cuiabá... O teatro onde levavam as peças era denominado São João, e posteriormente, já no século XX, passou a se chamar teatro Minerva.

A Sociedade Teatral Progresso Cuiabano foi fundada em 30 de setembro de 1879, na freguesia Dom Pedro II, bairro do Porto. Foram fundadores da mesma, Francisco Sizenando Peixoto, Delfino Nonato de Faria, João Francisco da Rocha, Antonio Gomes Xavier Moreira, Joaquim Vaz de Campos. Os sócios chegaram a adquirir um terreno e a construir nele o seu teatro, coberto com folhas de zinco. O teatro Progresso subsistiu por alguns anos, não se sabendo o motivo de seu desaparecimento.

Em 14 de março de 1882, foi fundado em Cuiabá o Club Literário, cujos estatutos sociais foram devidamente aprovados por ato do então Presidente da Província, o coronel José Maria de Alencastro. A diretoria era composta por Antonio Néri, Presidente, e demais membros Tomé Ribeiro de Siqueira,Luiz Teodoro Monteiro, Jerônimo Gomes Monteiro Macerata e Felipe de Campos Camacho. O Club visava o desenvolvimento da literatura brasileira, por meio de palestras e a publicação de uma revista, como a ele nos refere Estevão de Mendonça.

A Sociedade Instrução e Recreio foi instalada em Cuiabá em 21 de julho de 1883, sendo o ato presídio pelo Barão de Batovi, que, na ocasião, recebeu o titulo de sócio honorário. A historia não nos legou o nome dos diretores da sociedade, mas sobe-se que o orador oficial era o capitão generoso Ponce. A Sociedade tinha por objetivos o congraçamento de seus sócios em atividades lítero-musicais, com apresentação de saraus e palestras literárias.

Outra das primeiras instituições culturais de Mato Grosso, foi a Socieade Terpsícore Cuiabana, fundada em 18 de agosto de 1883 por iniciativa do Barão de Batovi, então presidente da província de Mato Grosso. O Barão de Batovi foi eleito seu Presidente, fazendo ainda parte da diretoria, Dr. João Carlos Muniz, Artur Augusto do Vale, Jose Magno da Silva Pereira e Caetano Manoel de Faria e Albuquerque. Concertos musicais, cantos, declamações e conferencias literária, os objetivos da sociedade. Estevão de Mendonça, assim nos da noticias da instituição: As partidas da Terpsícore eram mensais e foram sempre foram revestidas de grande animação. Apesar, porem de aparelhada para uma existência duradoura, desapareceu a sociedade pouco depois da retirada do barão de Batovi. Realmente esteve administrando a Província de Mato Grosso, o Barão do Batovi muito incentivou a cultura e as artes em Cuiabá. Figura pioneira nesse incentivo cultural.

A Associação Literária Cuiabana fundada em 21 de outubro de 1884, Viçou por ativo decênio, ate resvalar no declínio cada vez mais acentuado. Por fim, estiolou-se de todo, depois de quatro ou cinco mudanças, para sedes gradativamente mais modestas. Foi seu primeiro Presidente Antonio de Paula Corrêa e como demais diretores, Joaquim José Ferreira da Silva, Francisco Corrêa da Costa Sobrinho, Antonio Modesto de Mello e Antonio Joaquim de Faria Albernaz. A associação tinha por finalidade tão somente a constituição de uma biblioteca onde os sócios poderiam retirar livros para a sua instrução e cultura. Alguns exemplares de livros, outrora pertencentes à essa biblioteca, ainda com a etiqueta original da Associação Literária, encontram-se hoje na biblioteca da Casa Barão de Melgaço, de propriedade do Instituto Histórico e Academia de Letras.

Em 12 de abril de 1904 foi fundado o Club Internacional, estando na diretoria como Presidente o Dr. Manoel Joaquim dos Santos, Vice-Presidente, o Dr. Antonio Fernandes Trigo de Loureiro, secretario, o historiador Antonio Fernandes de Souza e Tesoureiro, Henrique Hesslein. Ao clube se referiu Estevão de Mendonça: O Club Internacional congregou em seio todos os elementos de destaque da sociedade cuiabana, organizando conferencias literárias, concertos musicais, partidas de dança e muitas outras manifestações de cultura. Em 1906, o presidente Manoel Joaquim dos santos estava pretendendo agregar às atividades culturais do Club uma revista, cujas boas intenções foram liquidadas pela revolução de 1906. Às lutas eleitorais seguiram-se as lutas armadas e com estas o atordoamento dos espíritos, os ressentimentos pessoais e a separação das famílias. O Club Internacional sentiu-se ferido de morte.

A Liga Mato-grossense de Livres Pensadores, fundada em 21 de abril de 1909, teve o eu jornal, A Reacção, editado a partir de 11 de julho de 1909, o qual vicejou por alguns anos. A diretoria era composta de Luiz Alves da Silva Carvalho, |Presidente, João Cunha, Vice-Presidente, Otávio Pitaluga, Secretário e Almerindo de Castro, Tesoureiro. A instituição, que abraçou a filosofia positista de Auguste Comte, sob direção de alguns intelectuais e pessoas gradas da sociedade cuiabana da época, era mais um organismo político, com extrema desavença com a Igreja Católica, o clero mato-grossense e em especial ao arcebispo D. Carlos Luiz d’Amour. Por volta de 1914, a sociedade foi extinta.

O Grêmio Literário Júlia Lopes, fundado em 26 de novembro de 1916, era formado essencialmente por senhoras e senhoritas da sociedade cuiabana, e editou por cerca de 40 anos a sua revista A Violeta, importante espaço editorial para a divulgação da produção de um sem numero de intelectuais da época.  A primeira diretoria era composta por Leonor Borralho, Presidente, e as demais diretoras, Maria Luiza Pimenta, Maria Ponce de Arruda, Maria da Gloria Figueiredo e Maria Dimpina de Arruda Lobo. Eram objetivos dessa sociedade, alem da publicação de sua revista, organização de palestras literárias feitas pelas associadas ou por pessoas estranhas a convite do Grêmio e impulsionar qualquer movimento literário. A redação da revista A Violeta, era composta de Tereza de Arruda Lobo, Regina Silva Prado, Mariana Povoas e Bartira de Mendonça. Essa interessante revista foi editada continuamente ate cerca de 1950. 

O Grêmio Álvares de Azevedo fundado em 13 de abril de 1911, foi uma instituição de caráter estritamente, dedicado mais à poesia e aos saraus lítero-musicais. Foi seu presidente Martiniano Augusto de Figueiredo, e os demais membros da diretoria Albano Antunes de Oliveira, Leônidas Antero de Mattos e Nilo Povoas. Em principio foi muito criticado e combatido por ter sequer uma biblioteca própria. Posteriormente, ao conseguir formar uma pequena biblioteca, em seguida desapareceu.

Todas essas instituições bem servem para exemplificar a preocupação dos intelectuais, mulheres e homens cultos e estudiosos da época, em agremiar-se em sociedades culturais. Era sem duvida uma das raras oportunidades de aprimoramento social e cultural que a época permitia. Organizavam suas bibliotecas, publicavam seus jornais e revistas, criando espaços editoriais para seus próprios trabalhos, divulgavam a cultura mato-grossense como um todo, através dos saraus, dos recitais poéticos e musicais. Construíam os seus teatros, levavam as suas peças, traziam companhias teatrais de fora. Enfim, almejavam divulgar a cultura, através do teatro, da historia, geografia, literatura, musica e a arte em Mato Grosso. Pessoas sensíveis preocupadas com a sua cultura.

 Existe ainda outro expressivo registro da preocupação constante, tônica sempre observada nos escritos de Estevão de Mendonça e Antonio Fernandes de Souza, com a criação de uma sociedade histórica. Quando da publicação do 1º volume da revista O Archivo em 1904, um dos editores da mesma, Antonio Fernandes de Souza, assim se expressou:... a fim de fundar-se nesta capital um Instituto Histórico e Geográfico que se incumbira de criar e montar uma revista do Estado de Mato Grosso... Essa revista marcou de forma indelével a sua presença no então pequeno mundo intelectual mato-grossense. Divulgou documentos que, com a posterior perda do Arquivo Publico, por certo teriam sido sempre perdidos na poeira da historia. Grande mérito pessoal de seus dirigentes, o sempre preocupado Estevão de Mendonça e Antonio Fernandes de Souza, com o patrocínio do presidente do estado, Antonio Paes de Barros.

Sem duvida os registros e arquivos nos mostram que, antes de 1919, quando da criação do Instituto Histórico de Mato Grosso, houve uma serie de tentativas por parte de homens sensíveis e estúdios, preocupados com a memória social de seu povo e de sua terra, em instituir agremiações que os unisse culturalmente com a finalidade tanto do congraçamento social, literário, teatral e musical, como da pesquisa e divulgação da historia e da geografia regional. Observa-se essa tendência, quase um movimento intelectual e cultural, a partir dos anos 70 do século XIX. E dentro desse movimento, nasceram ou foram formados os grandes intelectuais e literários mato-grossenses que, no afã de divulgar a cultura e a historia de sua terra, deixaram campo profundo, fértil e apropriado para o nascimento, em 1919, da instituição histórica que se fundou. No momento cultural surgido nessa época, em pleno século XIX, estão as raízes mais remotas e antigas, e no Grêmio Visconde de Taunay e na Sociedade Internacional de Estudos científicos, os antecedentes mais visíveis, que motivaram a criação do Instituto Histórico de Mato Grosso.

 

 Fonte: Paulo Pitaluga

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