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Cuiabá, Julho de 2019

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Almanaque Cuiabá

Os novos sanitaristas sociais

Os novos sanitaristas sociais

No começo do século, um dos maiores cronistas brasileiros – João do Rio – dava notícias do processo de modernização do Rio de Janeiro.

Ninguém é obrigado a saber história de cabo a rabo. Seria bom para entendermos as razões pelas quais chegamos onde chegamos, é verdade, mas história hoje em dia é um luxo. Se soubéssemos o básico, não nos surpreenderíamos tanto com o problema dos morros cariocas e da violência ali entrincheirada. No começo do século, um dos maiores cronistas brasileiros – João do Rio – dava notícias do processo de modernização do Rio de Janeiro. O então prefeito, Pereira Passos, mandou demolir antigos prédios de traço colonial para dar lugar à Avenida Central, hoje Rio Branco, uma espécie de Champs-Élysées fluminense, com edificações modernas em ruas largas que substituíram os casebres e cortiços pestilentos, repletos de desempregados, subempregados, pequenos comerciantes, caixeiros viajantes, lavadeiras, estrangeiros, negros alforriados e seus descendentes.
Com a “bota-abaixo” de Pereira Passos, o enorme contingente de trabalhadores que residiam no centro da cidade migrou para os morros, fazendo do chão o assoalho dos barracos e de tetos galvanizados a proteção para a chuva. Ninguém subia o morro, nem mesmo a polícia. João do Rio foi uma das poucas exceções e retratou as condições de vida: “desde o sopé da montanha as casas são todas feitas de bambu entrelaçado com barro, tendo por teto pedaços de folha de flandres seguros com pedras, são baiucas, são pocilgas, são indescritíveis”. Com a sagacidade que era peculiar, João do Rio antecipa: “será crível que, a dois passos da Rua do Ouvidor, haja uma favela, reduto inexpugnável de desordeiros conhecidos e de gatunos temíveis? Pois há e, o que é mais, com alguns dos mais valentes prestando serviços à polícia”. (Gazeta de Notícias, 21 de maio de 1903).
Ao mesmo tempo, o Rio de Janeiro contraiu uma febre europeia de longa duração: os maneirismos franceses tomaram conta do vestuário, da língua e do quotidiano carioca, enquanto o chá das cinco era instituído como hábito, além do jogo de bridge, verdadeira doença na alta sociedade. Essa belle époque contrastava com a formação dos primeiros aglomerados no Morro da Providência e na Favela. O abismo social era tratado com absoluto descaso e, portanto, nada mais natural que a formação de guetos de violência, comandado por “malandros e capoeiras de navalha” como se dizia à época, substituídos por traficantes fortemente armados, décadas depois. As coisas permaneceram assim em razão de sucessivos pactos entre políticos, milícias corrompidas e traficantes, salvaguardando as aparências da “zona sul”, uma terra de fantasia. A recém-nascida Ipanema, por exemplo, foi apelidada de Praia Maravilha, nas duas primeiras décadas do século XX, cujos os lotes eram valorizados por maganos que pretendiam uma vida moderna e luxuosa, livres da azáfama do centro da cidade.
Eu mesmo nasci em 1977. Recordo da minha avó tomando sol na frente do Copacabana Palace. Era um tempo de absoluta tolerância no convívio entre senhoras de maiô, travestis de biquíni, estrangeiros deslumbrados e vendedores de mate e biscoito Globo. A velha sabia, entretanto, que esse idílio iria acabar rapidamente. O Rio-Maravilha da zona sul não iria se sustentar o resto da vida. Olhando para o alto, Lydia me dizia o que qualquer morador da extinta Guanabara diria: tenho medo, medo do dia em que o morro descer para a rua. Aí sim, veremos uma revolução de verdade. O que minha avó premonizava eram as balas perdidas, os comandos criminosos, a corrupção institucionalizada. Isso tudo, lembremos, começou com a ideia de “saneamento social”, uma medida tão simples quanto imbecil.
O pesadelo carioca fermentou em silêncio enquanto a high society tomava o seu five o’clock tea, jogava law-tennis e foot-ball no Fluminense. Os grã-finos, mais preocupados com as lições de etiqueta de Rafael Mayrink à realidade das ruas, não deram a menor importância para o abismo financeiro que separavam as duas realidades: uma Paris dos Trópicos e uma Biafra tupiniquim. O que, francamente, os cariocas esperavam? Um dia, o morro cansou e desceu para o asfalto.
Se estudássemos um pouco mais de história, saberíamos que soluções simplistas são as piores. Como somos fracos em educação, a mentalidade da “limpeza social” ainda sobrevive nos Pereira Passos de hoje em dia, teimosos em resolver na marra o problema da miséria, da exclusão, da ignorância, da marginalidade, do abandono. Basta prender quem proteste. Basta derrubar o que é feio. Basta reconstruir tudo novo. Nada de tratar das causas. Isso é coisa de sociólogo, de antropólogo, de intelectual afetado. A solução deles pretende ser rápida. Tudo estará resolvido antes que o chá esfrie.

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