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Cuiabá, Novembro de 2019

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Almanaque Cuiabá

O Ponto

O Ponto

Era apenas um ponto inanimado, talvez uma mancha, sem razão de ser.

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No canto da parede, um pequeno ponto preto chamou atenção de Juliana. Ela abaixou-se e tentou pegá-lo, mas o ponto não se deixou agarrar. Vivo é que não está, brincou consigo mesmo Juliana. Era apenas um ponto inanimado, talvez uma mancha, sem razão de ser. Juliana tentou pegar o cisco entre o polegar e o indicador e, novamente, não conseguiu. Devia estar grudado à lajota. Feito de quê não foi possível saber. Os pontos pretos são assim: insondáveis. De qualquer modo, não era nada além de um pontinho ínfimo, desses que ninguém dá bola, com exceção de Juliana que, ao sair, disse à empregada: o chão do quarto está sujo. Passe o pano úmido duas vezes, por favor. A doméstica olhou tudo em volta e não viu o tal ponto preto que incomodava Juliana. Ainda assim, procedeu à faxina completa: arrastou os móveis, espanou, poliu, varreu e, para finalizar, soltou no ar uma borrifada de alfazema que usava para passar a roupa. Cama feita, toalhas dobradas, travesseiros simetricamente posicionados: o quarto ficou um brinco. Da chegada de Juliana, porém, não se passaram cinco minutos para que a empregada fosse chamada às falas: não te pedi pra passar o pano de chão? Sim senhora, mas eu passei! E aquele ponto preto? Que ponto preto, dona Juliana? Aquele ponto preto que está no canto da parede, quase na quina. Não viu? A empregada não reparou nenhum ponto preto e fez cara de assombro. Do quarto, Juliana gritava: este aqui, o ponto preto – ó! – mostrou com o bico do sapato. Ansiosa com o caso, Juliana dispensou ajuda. Foi ela mesma buscar uma pequena faca pontiaguda para remover a inconveniência. Raspou exatamente onde estava o ponto, mas não conseguia mais do que arranhar o chão. Parece uma verruga. Que praga! – pensou consigo, admirada com a renitência do indesejado. Juliana não se deu por vencida, porém. Da dispensa, voltou com a caixa de ferramentas e, dela, sacou a chave de fenda e o martelo. Depois de fazer mira no adversário, Juliana deu uma martelada com toda a força, arrancando lascas de piso que sujaram o quarto de pó fino. A mulher olhou o chão com um ar vitorioso que acabou por se desfazer ao constatar que o ponto preto permanecia teimoso no mesmo lugar, estampado no cimento. Daí se seguiram duas, três, quatro marteladas a fim de aprofundar a intervenção e extirpar, pela raiz, o ponto preto que se tornou insuportável para Juliana. No entanto, por mais que cavoucasse, Juliana continuava olhando o inimigo no chão, absolutamente inabalável, quase risonho. Desgraçado! – xingou o ponto como se tivesse sido por ele traída. Daquele momento em diante, vestiu-se de guerra: prendeu o cabelo, tirou o sapato, as meias de náilon, o relógio, a aliança de ouro e partiu para martelar o chão freneticamente até que fez um considerável buraco no canto do quarto, coisa que só mesmo um encanador consegue fazer. Morra, miserável! – gritava Juliana nos últimos golpes que dava no concreto. Por fim, vencida pelo cansaço, a mulher afastou-se para inspecionar o campo de batalha. No fundo do buraco, pregado à laje, o ponto preto sobreviveu incólume. Ele, o ponto, empinava o nariz provocando ainda mais a ira da inimiga íntima. Juliana começou a chorar ao perceber que o ponto preto dava de ombros para o esforço dela em removê-lo. Era o que lhe dava nos nervos – o desprezo. No buraco, Juliana jogou álcool, creolina, desinfetante, bicarbonato de sódio, vinagre morno e, esgotada a guerra química, despejou ainda uma lata de Coca-Cola que diziam ser tiro-e-queda contra sujeira. Quando, por fim, Juliana viu-se convencida que o ponto preto não arredaria o pé do quarto, fez a mala e foi dormir na casa dos pais. Deitada na antiga cama de solteira, resmungava entre os dentes: quero ver agora como aquele filho da puta se vira sozinho.

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