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Cuiabá, Julho de 2019

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Almanaque Cuiabá

Black Friday...

Black Friday...

Durante um ano inteiro, Dona Terezinha economizou. No começo de novembro, pediu ao patrão que adiantasse o 13o.

Dona Terezinha estava pálida. Nenhum problema de saúde. Nada além da incomensurável vontade de ir ao banheiro. Estava na fila para o Black Friday desde a madrugada. A loja abria às 9. A multidão dobrava a quarta esquina, formando uma sucuri-açu nunca vista por essas bandas. Seguranças foram contratados para organizar a fila que engrossava hora a hora. Dona Terezinha não imaginava as vicissitudes daquela hostil concorrência. Orgulhava-se, porém, de estar ali, firme e forte, em primeiro lugar. Era dela a primazia para pegar a televisão, a máquina de lavar louças e o novo microondas. Por isso, espremia o gordo flanco contra as grades, sentada na cadeira de fio alugada de um morador de rua. Durante um ano inteiro, Dona Terezinha economizou. No começo de novembro, pediu ao patrão que adiantasse o 13o. Juntou tudo na conta e pediu ao gerente o primeiro cartão de crédito da vida dela. As horas arrastavam-se. Mesmo sem saber, Dona Terezinha estava provando que Einstein tinha mesmo razão: o tempo é relativo. Às 7 da manhã, a mulher sentia nas têmporas o suor frio que escorria com o intestino em ebulição. A bexiga, prensada entre o estômago dilatado e as coxas de Dona Terezinha, quase explodia. Os colegas de fila pensavam que a consumidora-primaz passava mal pela idade, pela obesidade, pelo calor ou simplesmente pelas três razoes ao mesmo tempo. Erravam redondamente. Dona Terezinha havia comido galinha caipira com quiabo. Dois pratos. De sobremesa, pudim de leite condensado. Não dormiu. Arrumou duas garrafas de água e partiu para o plantão na porta da Magazine Luíza. Eram 3 horas da madrugada quando chegou. Às 8, parecia que Dona Terezinha havia se livrado do problema. Algo tinha se acomodado dentro dos bofes. A vontade simplesmente passou. O organismo daquela senhora devia ter entendido a importância da nova lava-louça. No entanto, faltando cinco minutos para abrirem a loja, o intestino de Dona Terezinha deu sinal de vida. Voltou com toda a força numa cólica atroz. É que – está provado – o intestino sente quando chega próximo de uma latrina. A mulher levantou-se da cadeira de fio, fechou o esfíncter com o intenso movimento muscular dos glúteos, esforço necessário para não passar vergonha na rua. Ao levantarem as portas metálicas, Dona Terezinha sucumbiu. Ficou ali imóvel, sentindo correr por dentro da calça jeans o resultado dos dois pratos de galinha com quiabo. Preferiu nem lembrar do pudim. Sem alternativa, enquanto viu a multidão avançar pela loja como uma nuvem de gafanhotos, ela refugiou-se no banheiro tão limpo quanto deserto. Voltou constrangida para a loja. Não teve tempo nem disposição para procurar mais nada. Parecia que uma guerra civil eclodira naquele local. Timidamente, Dona Terezinha encaminhou-se para o setor de lingerie, apanhou uma calcinha nova e se dirigiu ao caixa. Só isso?, a menina perguntou. A senhora não precisa de mais nada? Aproveita que estamos de Black Friday, hein? Dona Terezinha enxugou com a palma da mão o resto de suor da testa e respondeu: esse ano, decidi economizar...

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